Sentamos na sala de estar. O som do silêncio é o relógio de parede que quebra, por não estar quebrado - infelizmente. Dura três longos minutos. Fala-se, então, das novas descobertas científicas na revista que podem nos fazer viver mais. Me pergunto para quê. E a caverna subterrânea, da beira do profundo nos observa, repleta de silêncio e coisas escuras por dizer e uma pitade de ser. Entreolhamo-nos, semiconscientes dela mas sem coragem. O relógio segue. Ninguém desce a si.
(Fabio Rocha)
Terça-feira, 26 de Maio de 2009
Terça-feira, 7 de Outubro de 2008
DA NOVA PRIMEIRA SESSÃO DE PSICANÁLISE
Acho a sala. Porta de vidro. Me aproximo. Algo em mim quer correr. Cavalos no peito. Porta de vidro. Hora certinha (um pouco antes até). Alguém lá dentro me olha. Empurro a porta. Trava. Pergunto ao alguém se está trancada. Ela, sem muita firmeza, manda insistir. Empurro. Trava. Olho pra ela. Cara de perdida também. Puxo. Abre. Algo me diz que ela não é a psicanalista. Digo que tenho hora marcada. Mas, após 3 palavras, vejo que também não é secretária. Sento, esperando. Sala com cheiro de tinta. Psicanalista atrasa? Algo em mim quer achar motivo para correr. Cavalos no peito. Rio de mim mesmo. Ela diz que a psicanalista deve estar em sessão. Anota algo na agenda. Olho para as revistas ao lado. Desinteresse total sobre o homossexualismo no exército. Penso em pegar outra delas, para ter para onde olhar. Mas logo desisto. Acabo observando ela. Que diabos tanto anota na agenda? Ela oferece água. Recuso. Algo está constantemente zunindo, zumbindo, baixinho... Acho que é a geladeirinha sob o galão de água. Que apito infernal. É como se vibrasse no mesmo tom da minha tontura, que quase se mostra no palco entre as minhas orelhas. Pensando bem, tem sempre algo elétrico zumbindo onde quer que estejamos... Ela some por uma porta. Será que meu olhar e minha tontura zumbindo a espantaram? Sofá meio de palha desconfortável. Cavalos no peito. Rio de mim mesmo tão desesperado por nada. Nada? Aliás, desde sempre tenho vontade de rir de algo no mistério da psicanálise. O cheiro de tinta melhora. Ou me acostumo. Mas algo em mim ainda quer correr. Oceanos que preferem estar abaixo da superfície.
(Fabio Rocha)
(Fabio Rocha)
Quarta-feira, 19 de Março de 2008
AUTOCONVERSA SOBRE CONSERVAÇÃO
Ser ateu é negar o Deus padrão. OK. E isso é o mesmo que permanecer preso a Deus, como um escravo liberto que vive a vida ainda da medida da prisão, retendo o cárcere consigo. Parte-se de Deus para negá-lo, como uma vingança inútil. Certo Nietzsche?
Para minha vida prática, me veio instantaneamente a questão do trabalho. Será que é por isso que minha ansiedade permanece, mesmo após eu parar de trabalhar? (Menor, mas presente.) Estar ou não trabalhando gera ansiedade da mesma forma, por estar eu, escravo, vivendo para negar as grades do labor? E, assim estando, me mantenho preso a esse modo de vida (e de vista)? O ócio ainda quase agoniento seria uma negação ao trabalho? Precisaria primeiro do trabalho, para depois ser negado, se mantendo assim, preso ao trabalho?
Devo eu tentar considerar a criação artística como trabalho e me acalmar? (Acho que isso eu já tento...)
Ou talvez precise mudar a perspectiva: mudar para um ócio primeiro (não no sentido temporal, mas ontológico). Um ócio que seja por si só. Ócio não para não fazer nada em contraposição vingativa ao fazer do trabalho. Mas um ócio além da visão utilitarista da vida... Um ócio que não seja necessariamente ócio e não meça nem se estou no ócio ou produzindo algo. Talvez.
Do mesmo modo, um anti-consumismo contra o bombardeio do marketing talvez não seja a resposta. Mas algo originário... E original. Sem o quê de vingança.
Uma outra questão levantada nas aulas de hoje, por onde divaguei: Será que existem filósofos contemporâneos (FILÓSOFOS - e não professores de história da filosofia) em algum canto escondido do mundo que produzem pensamentos próprios em vez de comentar os dos outros? E por quanto tempo repetiremos reclamações na esperança de que outros mudem o mundo, nos colocando de forma tão passiva perante a realidade?
(Fabio Rocha)
Para minha vida prática, me veio instantaneamente a questão do trabalho. Será que é por isso que minha ansiedade permanece, mesmo após eu parar de trabalhar? (Menor, mas presente.) Estar ou não trabalhando gera ansiedade da mesma forma, por estar eu, escravo, vivendo para negar as grades do labor? E, assim estando, me mantenho preso a esse modo de vida (e de vista)? O ócio ainda quase agoniento seria uma negação ao trabalho? Precisaria primeiro do trabalho, para depois ser negado, se mantendo assim, preso ao trabalho?
Devo eu tentar considerar a criação artística como trabalho e me acalmar? (Acho que isso eu já tento...)
Ou talvez precise mudar a perspectiva: mudar para um ócio primeiro (não no sentido temporal, mas ontológico). Um ócio que seja por si só. Ócio não para não fazer nada em contraposição vingativa ao fazer do trabalho. Mas um ócio além da visão utilitarista da vida... Um ócio que não seja necessariamente ócio e não meça nem se estou no ócio ou produzindo algo. Talvez.
Do mesmo modo, um anti-consumismo contra o bombardeio do marketing talvez não seja a resposta. Mas algo originário... E original. Sem o quê de vingança.
Uma outra questão levantada nas aulas de hoje, por onde divaguei: Será que existem filósofos contemporâneos (FILÓSOFOS - e não professores de história da filosofia) em algum canto escondido do mundo que produzem pensamentos próprios em vez de comentar os dos outros? E por quanto tempo repetiremos reclamações na esperança de que outros mudem o mundo, nos colocando de forma tão passiva perante a realidade?
(Fabio Rocha)
Quarta-feira, 5 de Março de 2008
MERGULHO
Para Clarice Lispector
Aos 9 anos de vida não suportava que André desenhasse melhor que ele. E o pior é que ele desenhava. Traços arredondados, com estilo... Então, começou a espalhar um boato sobre ele. Boato que chegou aos ouvidos da diretora, obrigando-o a criar um esquema fraudulento, elaborado com a astúcia que se têm aos 9 anos de idade, para acusar André Luís, aquele bonachão, de ladrão. Afinal, seu dinheiro havia mesmo sumido da pasta azul... E bem que poderia ter sido André o gatuno. A diretora vem pra sala, conversar com toda a turma. E seu amigo Geraldo, minutos após o início do julgamento, ergue o braço, com cara de culpa. E delata calmamente seu plano perfeito, na frente de todos, testemunhas compradas ou não. Dedo-duro desgraçado. E assim, foi chorar com a diretora, envergonhado, o cabeça do plano. No fundo, sabia meio errado o que fazia, mas André desenhava tão melhor que ele... Lembrou das meninas para quem ele contava histórias com a mão esquerda pintada de rosto, agora elogiando os desenhos do gordo André. Estranhou a diretora calma e montessoriana consolando-o. E a mãe também aceitou bem a notícia dentro do colégio, quando foi pegá-lo, como fazia diariamente. Mas seu sorriso desbotou ao ouvir a história. Ele notou algo errado na morte já do primeiro sorriso da mãe. E ela espancou suas pernas enquanto dirigia e chorava pelo caminho. Nesse momento, não sabia de que complemento verbal tinha mais medo: do bater nele ou do bater o carro. Em casa, o quarto onde dormia, agora transformado em aposento de ficar de castigo, era todo silêncio e medo e rejeição e falta de amor e paredes brancas e excesso de tempo até o pai chegar do trabalho. Dias, meses naquelas horas... Sem poder ligar a TV. Parecia maior, parecia outro quarto... Como suportar aquele quarto? Cheio de silêncio e ele mesmo no meio, sem nem sentar no sofá que talvez não pudesse também, pois estava de castigo. Começou a partir daí a achar que ele merecia um quarto daqueles, aqueles castigos e quaisquer outros futuros... Merecia. Suas escolhas foram erradas. Melhor seria seguir escolhas ditadas: como ser castigado seguindo apenas idéias dos outros? Dias depois, abriu a pasta e achou o dinheiro num canto. Jogou no vaso sanitário (o seu coração pulsando) e deu descarga. Durante uns trinta anos.
(Fabio Rocha)
Aos 9 anos de vida não suportava que André desenhasse melhor que ele. E o pior é que ele desenhava. Traços arredondados, com estilo... Então, começou a espalhar um boato sobre ele. Boato que chegou aos ouvidos da diretora, obrigando-o a criar um esquema fraudulento, elaborado com a astúcia que se têm aos 9 anos de idade, para acusar André Luís, aquele bonachão, de ladrão. Afinal, seu dinheiro havia mesmo sumido da pasta azul... E bem que poderia ter sido André o gatuno. A diretora vem pra sala, conversar com toda a turma. E seu amigo Geraldo, minutos após o início do julgamento, ergue o braço, com cara de culpa. E delata calmamente seu plano perfeito, na frente de todos, testemunhas compradas ou não. Dedo-duro desgraçado. E assim, foi chorar com a diretora, envergonhado, o cabeça do plano. No fundo, sabia meio errado o que fazia, mas André desenhava tão melhor que ele... Lembrou das meninas para quem ele contava histórias com a mão esquerda pintada de rosto, agora elogiando os desenhos do gordo André. Estranhou a diretora calma e montessoriana consolando-o. E a mãe também aceitou bem a notícia dentro do colégio, quando foi pegá-lo, como fazia diariamente. Mas seu sorriso desbotou ao ouvir a história. Ele notou algo errado na morte já do primeiro sorriso da mãe. E ela espancou suas pernas enquanto dirigia e chorava pelo caminho. Nesse momento, não sabia de que complemento verbal tinha mais medo: do bater nele ou do bater o carro. Em casa, o quarto onde dormia, agora transformado em aposento de ficar de castigo, era todo silêncio e medo e rejeição e falta de amor e paredes brancas e excesso de tempo até o pai chegar do trabalho. Dias, meses naquelas horas... Sem poder ligar a TV. Parecia maior, parecia outro quarto... Como suportar aquele quarto? Cheio de silêncio e ele mesmo no meio, sem nem sentar no sofá que talvez não pudesse também, pois estava de castigo. Começou a partir daí a achar que ele merecia um quarto daqueles, aqueles castigos e quaisquer outros futuros... Merecia. Suas escolhas foram erradas. Melhor seria seguir escolhas ditadas: como ser castigado seguindo apenas idéias dos outros? Dias depois, abriu a pasta e achou o dinheiro num canto. Jogou no vaso sanitário (o seu coração pulsando) e deu descarga. Durante uns trinta anos.
(Fabio Rocha)
Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008
PARA CLARICE LISPECTOR
. E de vez em quando eu também sinto uma dorzinha fina, incômoda e sem lugar. No entanto, talvez por puro prazer masoquista, talvez por pura vontade de mergulhar mais fundo, ao invés da fuga habitual, puxo ainda mais forte os fios invisíveis e silenciosos da solidão. E todo o mundo parece melhor, estranhamente. Deixo a vontade de entender um pouco de lado, e sigo parado como a sua menina ruiva, sentada às duas horas da tarde num sol danado, com soluço e sem cão. Acabam saindo umas letras negras no meio sangue branco...
(Fabio Rocha)
(Fabio Rocha)
Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008
REPETIÇÃO
Palavras lavram larvas latas de feijão de desenhos animados de épocas em que eu era mais animado se é que existe o passado e por falar nisso o presente pode ser chat se não há futuro mas isso seria uma contradição ou uma dança na contramão e... e na verdade talvez seja melhor não saber que não há verdade.
(Fabio Rocha)
(Fabio Rocha)
Domingo, 23 de Dezembro de 2007
OS DESAFIOS DA TERAPIA, DA VIDA E DO ENCONTRO
Distrações boas à tentativa de leitura. Vozes dos pais na sala. Yalom diz que criatividade e sensibilidade geram ansiedade. Assim, minha tontura de final de ano se acalma com uma causa. A maciez do teclado onde crio chama sem queimar... E venho escrever detalhes sem relevância. O que é a vida senão detalhes sem relevância? Vontade de me encontrar em profundidade com o outro. Isso que me faz criar é o que me anima também a me formar como psicanalista ou dar aulas. Mas ando desanimado com aulas, ultimamente. Muitos metódicos atravancando o caminho. Sim, também tenho um lado metódico, mas não consigo ver o mundo de um ponto de vista muito metódico sem sentir o peso de algum ressentimento. Nietzsche. Tenho que ir além de Nietzsche algum dia em minha vida, libertar meu pensar de seu martelo. Meu pensar, aliás, importa menos que meu sentir. Chove fraquinho. Deve dar para andar hoje à tarde com meu amor, entre árvores.
(Fabio Rocha)
(Fabio Rocha)
Quarta-feira, 28 de Novembro de 2007
(IN)CONSCIENTE
Quanto mais lia sobre a importância de aceitar que nada é definitivo, quanto mais concordava com a vida plena no momento presente, aceitando a guerra caótica com poder, coragem e força, vindo o que vier no devir... Mais se sentia tenso, mais se preocupava com o futuro, o dinheiro... Mais planejava e tentava resolver tudo para o amanhã chegar todo certinho, pratos lavados, carro abastecido, como se pudesse algum amanhã ser totalmente previsível. Como se pudesse alguém se aproximar do definitivo. E qual seria a graça de uma manhã assim?
(Fabio Rocha)
(Fabio Rocha)
Sábado, 13 de Outubro de 2007
CENTRAL DE RELACIONAMENTO, BOM DIA
- VOZ ELETRÔNICA: Por favor, digite seu CPF.
- 123456789
- VOZ ELETRÔNICA: Por favor, digite o número de seu celular com DDD.
- 987654321
- VOZ ELETRÔNICA: Aguarde. Estamos transferindo sua ligação para a central de atendimento específica para a sua cidade.
- ...
- Cirlene falando. Bom dia, senhor Antônio, em que posso ajudar?
- Meu nome é Joaquim. Bom dia.
- Para mudar o seu nome cadastrado, o senhor terá que falar com a central de mudanças de dados cadastrais, estou transferindo sua ligação.
- Espera! Não é sobre isso que...
(Entra a musiquinha... "Você é muito importante para nós, não desligue." Uma voz sexy e a musiquinha de novo e de novo...)
- VOZ ELETRÔNICA: Por favor, digite seu CPF.
- 666
(Fabio Rocha)
- 123456789
- VOZ ELETRÔNICA: Por favor, digite o número de seu celular com DDD.
- 987654321
- VOZ ELETRÔNICA: Aguarde. Estamos transferindo sua ligação para a central de atendimento específica para a sua cidade.
- ...
- Cirlene falando. Bom dia, senhor Antônio, em que posso ajudar?
- Meu nome é Joaquim. Bom dia.
- Para mudar o seu nome cadastrado, o senhor terá que falar com a central de mudanças de dados cadastrais, estou transferindo sua ligação.
- Espera! Não é sobre isso que...
(Entra a musiquinha... "Você é muito importante para nós, não desligue." Uma voz sexy e a musiquinha de novo e de novo...)
- VOZ ELETRÔNICA: Por favor, digite seu CPF.
- 666
(Fabio Rocha)
Sexta-feira, 21 de Setembro de 2007
SEM INTERNET
O ventilador joga silêncio em minha pele, enquanto as persianas esperam - sem ansiedade - o crepúsculo. Passam pedaços retangulares de céu pela janela da cozinha. O tempo me sobra e não tenho pressa ou meta distante. Sensação boa de já ter chegado. Disputa e medo acenam de longe. Reaprendi a ler.
(Fabio Rocha - 20/9/2007)
(Fabio Rocha - 20/9/2007)
Terça-feira, 28 de Agosto de 2007
CORES
Fazia frio. Subiu a montanha, com o sol branco refletido na neve, tão branco que sentia como se lhe purificasse a alma. Mas sentia falta do verde ali, do verde das árvores que balançavam lentamente com o vento, na frente da casa de sua infância, como um calmante símbolo da perenidade: acontecesse o que acontecesse na sua vida, as mesmas árvores continuavam ali, dançando ao vento, acarinhando os ares, servindo de lar para os pássaros que teimavam em sobreviver na cidade grande.
Pensando bem, durante toda a sua vida foi assim, esta foi sua maldição e seu tesouro: estava dividido. Em cada mínima situação, exatamente como agora. A paz do branco trazia a falta do verde. Se estivesse no meio do verde, teria saudades do branco. Mas essa eterna insatisfação tinha como positividade o mover-se adiante, por sempre querer mais.
Pensava ainda nas palavras de Portus, do dia anterior, na cabana de madeira onde se hospedaram. Estava ao lado da lareira, fumando seu charuto prazerosamente e olhando as estranhas formas de sua fumaça. Engraçado como mesmo relaxado, como nesses momentos, ele mantinha um ar misterioso e elegante.
“O que interessa da filosofia é o que você usa dela na sua vida prática. Por exemplo, saber e sentir que a vida sempre existiu e sempre existirá, desde antes de se nascer e mesmo depois de se morrer. Só pode ser considerado válido se você MUDA após perceber isso. A maioria só repete pensamentos antigos sem deixar que isso toque em profundidade sua maneira de ser.”
Seus pés começavam a doer, mesmo protegidos com tantas meias e botas. Frio demais. O vapor de sua respiração ofegante se misturava ao do charuto de Portus. Precisava subir mais. Chegar ao topo. Concluir aquilo.
Buscou energias não sabe de onde, sentiu o vento novamente como uma carícia em vez de inimigo e seguiu subindo. Se pensasse na pequena vitória de cada passo, em vez de concentrar toda a felicidade na chegada ao cume e a bela vista, conseguiria. Outra filosofia para a vida...
***
Ísis ouvia o som do rio, sereno, constante, deitada ao lado da margem. Às vezes se virava para molhar os dedos das mãos e brincar um pouco com a água gelada.
Quanto tempo esperou por aquele momento... Paz. Largar tudo e fazer da vida eternas férias. Foi um risco grande, mas toda mudança assim é um salto no escuro. Mas ela decidiu arriscar. Pegou o dinheiro que tinha juntado trabalhando na cidade grande, no ritmo extremamente rápido e antinatural da cidade grande, e se mudou pro campo. O movimento contrário à maioria da população em todo o planeta. Mas não se importava. Pra onde essas maiorias estavam levando o planeta, com sua postura excessivamente masculina, consumista, exploratória e racional?
Ali era seu lugar. Sentia o sagrado ao alcance das mãos e o prazer no momento presente, não num futuro que nunca chega.
Seu namorado também ficou pra trás. Lembrou dele ao notar o sol começando a se perder atrás das montanhas. Era momento mais bonito do dia: o crepúsculo. Admiraram muitos deles juntos. Guardou as lembranças boas dos dois com carinho, mas era preciso admitir que, em sua alma, já havia acabado aquela magia tão necessária. Para ela, amar alguém não significava um compromisso para toda a vida, mas um compromisso para com o amor apenas. E aceitava bem isso.
Percebeu seus olhos fixando o olhar num ponto vermelho caindo montanha abaixo. Parecia um tombo feio. Correu para perto, mais preocupada que curiosa.
***
Lucas sentiu que sua perna não estava mais lhe obedecendo. Um cansaço imenso. Depois mais nada. Só a escuridão. Sentiu-se como que mergulhando numa piscina de trevas, de águas plenamente negras. Era como se estivesse realmente afundando numa caverna antiga, perdida nos tempos. Lembrou-se de alguns fatos de sua vida, um cão querido de sua infância, o abraço da avó... Sabia que estava a um palmo de uma grande mudança. Profunda. E então, algo o puxou. Solavancos. Leve sensação de dor. E uma luz forte lentamente aumentava de intensidade. Sons. Voz de alguém. Gosto de sangue. Frio. Estava deitado na neve! E alguém lhe falava algo. Foi quando viu o rosto feminino de Ísis no meio da luz que lhe cegava. Sorriu.
(Fabio Rocha)
Pensando bem, durante toda a sua vida foi assim, esta foi sua maldição e seu tesouro: estava dividido. Em cada mínima situação, exatamente como agora. A paz do branco trazia a falta do verde. Se estivesse no meio do verde, teria saudades do branco. Mas essa eterna insatisfação tinha como positividade o mover-se adiante, por sempre querer mais.
Pensava ainda nas palavras de Portus, do dia anterior, na cabana de madeira onde se hospedaram. Estava ao lado da lareira, fumando seu charuto prazerosamente e olhando as estranhas formas de sua fumaça. Engraçado como mesmo relaxado, como nesses momentos, ele mantinha um ar misterioso e elegante.
“O que interessa da filosofia é o que você usa dela na sua vida prática. Por exemplo, saber e sentir que a vida sempre existiu e sempre existirá, desde antes de se nascer e mesmo depois de se morrer. Só pode ser considerado válido se você MUDA após perceber isso. A maioria só repete pensamentos antigos sem deixar que isso toque em profundidade sua maneira de ser.”
Seus pés começavam a doer, mesmo protegidos com tantas meias e botas. Frio demais. O vapor de sua respiração ofegante se misturava ao do charuto de Portus. Precisava subir mais. Chegar ao topo. Concluir aquilo.
Buscou energias não sabe de onde, sentiu o vento novamente como uma carícia em vez de inimigo e seguiu subindo. Se pensasse na pequena vitória de cada passo, em vez de concentrar toda a felicidade na chegada ao cume e a bela vista, conseguiria. Outra filosofia para a vida...
***
Ísis ouvia o som do rio, sereno, constante, deitada ao lado da margem. Às vezes se virava para molhar os dedos das mãos e brincar um pouco com a água gelada.
Quanto tempo esperou por aquele momento... Paz. Largar tudo e fazer da vida eternas férias. Foi um risco grande, mas toda mudança assim é um salto no escuro. Mas ela decidiu arriscar. Pegou o dinheiro que tinha juntado trabalhando na cidade grande, no ritmo extremamente rápido e antinatural da cidade grande, e se mudou pro campo. O movimento contrário à maioria da população em todo o planeta. Mas não se importava. Pra onde essas maiorias estavam levando o planeta, com sua postura excessivamente masculina, consumista, exploratória e racional?
Ali era seu lugar. Sentia o sagrado ao alcance das mãos e o prazer no momento presente, não num futuro que nunca chega.
Seu namorado também ficou pra trás. Lembrou dele ao notar o sol começando a se perder atrás das montanhas. Era momento mais bonito do dia: o crepúsculo. Admiraram muitos deles juntos. Guardou as lembranças boas dos dois com carinho, mas era preciso admitir que, em sua alma, já havia acabado aquela magia tão necessária. Para ela, amar alguém não significava um compromisso para toda a vida, mas um compromisso para com o amor apenas. E aceitava bem isso.
Percebeu seus olhos fixando o olhar num ponto vermelho caindo montanha abaixo. Parecia um tombo feio. Correu para perto, mais preocupada que curiosa.
***
Lucas sentiu que sua perna não estava mais lhe obedecendo. Um cansaço imenso. Depois mais nada. Só a escuridão. Sentiu-se como que mergulhando numa piscina de trevas, de águas plenamente negras. Era como se estivesse realmente afundando numa caverna antiga, perdida nos tempos. Lembrou-se de alguns fatos de sua vida, um cão querido de sua infância, o abraço da avó... Sabia que estava a um palmo de uma grande mudança. Profunda. E então, algo o puxou. Solavancos. Leve sensação de dor. E uma luz forte lentamente aumentava de intensidade. Sons. Voz de alguém. Gosto de sangue. Frio. Estava deitado na neve! E alguém lhe falava algo. Foi quando viu o rosto feminino de Ísis no meio da luz que lhe cegava. Sorriu.
(Fabio Rocha)
Sábado, 18 de Agosto de 2007
TRECHOS DE UM DIÁRIO PERDIDO
Não. Não poderia reclamar da prisão, já que ele mesmo se pôs lá. Estava tão acostumado a se fazer de vítima que estranhava, agora isolado no apartamento, não ter a quem culpar.
Pelo menos o apartamento era seu, assim como a dor e todas as vantagens e desvantagens que têm as raras pessoas que optam por tomar posse de suas próprias escolhas.
Habituado a ser sempre um robô guiado por entidades que agora não conseguia identificar, estranhava - chegava a ficar angustiado - com a escolha de pequenos atos: escovar os dentes ou lavar a louça?
Quando seus pensamentos inimigos se desviavam dessas questões aparentemente irrelevantes (mas angustiantes), se voltavam para o medo, provocado inicialmente por um estalo assustador na garrafa plástica de dois litros de guaraná diet:
- E se essa cadeira meia bamba cair, quem me socorre? E se eu engasgar trancado aqui sozinho? Vou morrer...
Mas também sentia que estava ganhando algo. Apesar de toda a dificuldade, estava se sentindo orgulhoso de conseguir esquentar uma quentinha sua num fogão seu... De sobreviver a um local sem TV nem internet... De usar reticências sem se preocupar com seu estilo... E de escrever ouvindo música clássica, no micro extremamente sem internet, sem ser interrompido, sem lavar a louça nem escovar os dentes, sentindo o nascimento de algo bom no meio daquelas longas frases.
Caso existisse, Deus devia estar sozinho quando criou o universo. Precisava mesmo era se encontrar.
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Mudando o tema, tô meio tonto. Puta que pariu, meio tonto. Que merda. Que fiz eu, que me preocupa, que me entontece? Não... Admitir que estou tonto é fortalecer a tontura. Eu vinha vencendo as tentativas dela voltar fingindo que não havia nada. Não há nada. Nada.
Telefone tocou junto com uma piscada de alguém entrando no MSN. Fecho essa janela? Olho o MSN? Atendo?
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Arte. Respiro arte... O trabalho aqui se torna cada vez menos. Eu sou arte, pensamento, sentir. Nada de números e vendas e análises...
Sons no corredor. Trânsito lá fora. Preguiça de escovar os dentes depois da barra de cereal (cara demais, aliás, não compro mais). O corredor é que preocupa. Quem pode entrar? O que pode cobrar? Tenho feito tão pouco aqui... Só pode vir um castigo. Já consigo ouvir meu inconsciente. Como se o mundo fosse assim tão lógico: crime e castigo. Um bom título de livro.
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Tá ficando abafado. Preguiça de levantar e ligar o ar condicionado velho sem termostato (o máximo ou o mínimo, tudo ou nada, inferno ou céu, a pílula azul ou a vermelha, como eu). Levanto e ligo.
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Me pergunto por que suo e o que procuro e procuro... Não, nem me pergunto mais.
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Nem me pergunto mais por que não posso ir ao cinema sozinho, ser feliz sozinho. Sei que não vou nem sou.
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Pronto, mal escrevi e perdeu o sentido. Releio. Mudar internamente algo ou mudar a vida, o trabalho, a localização geográfica na pátria? Olho a cama. Lençol azul. Chão por lavar. Minhas meias pretas dentro dos sapatos pretos. Cadê a luz?
De volta à angústia. Acho que perceber o que pode ser não adiantou muito.
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“Cabe a você decidir o que fazer com o tempo que lhe é dado.”
A frase de Gandalf ecoa novamente em meu cérebro. Desde o primeiro trailer do Senhor dos Anéis que seu efeito foi como o de um soco no meu estômago, um despertar bruto. Minha sensação de estar perdendo tempo... Que só agora acho que compreendo melhor, lendo Schopenhauer. Ele, como Buda, teve que decidir entre o conforto e verdade em certo momento. Buda renunciou à vida de riquezas num castelo para sair pelo mundo e iluminá-lo. E percebo agora, independente de meu caos nos relacionamentos, que não posso ser feliz trabalhando com Administração. Quero é ser, como Schopenhauer (alma irmã que tive o prazer de descobrir), um erudito: ler, ensinar, escrever, aprender... Coisas que me façam achar que tive uma vida quando estiver velho e sem sono.
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Essa força interna que acendeu foi tão forte, junto com a leitura de Schopenhauer, que o fim de semana foi bom pra caramba... Eu lendo e ouvindo música clássica e percebendo que não queria que meu celular mudo tocasse, nem nada futuro, nem nada passado... Feliz. Muito feliz. Fazendo algo que eu adoro: estar com gente inteligente. Passei o domingo com Schopenhauer.
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Mas, aí veio o melhor, o sonho... Um dos melhores sonhos de minha vida. Eu flutuava num celeiro ou cabana, à noite. As portas enormes abertas. Abaixo de mim, mais pra trás tinha gente que eu queria defender, lutar junto... E lá fora, pelas portas, a noite negra. E olhos amarelos e vermelhos (muitos) se abrindo e aproximando. Eu vejo uma espada estranha, aberta, sobre mim, vôo até ela, sem medo (com muito mais empolgação do que medo... Eu era forte, coincidentemente, pois acho que me fortaleci sendo eu mesmo e me bastando, sozinho comigo mesmo, durante o dia...). Agarro a espada aberta e junto suas pontas. Vira uma espada com duas lâminas. E bichos (ou homens?) começam a pular das trevas pára a luz da cabana-celeiro. E os corto... Deliciosamente, sou o herói voador com um espada dupla... Deliciosamente acordo...
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Hoje vim pro trabalho e a seqüência de músicas da MPB FM me fez, pela primeira vez, chorar no trânsito, cantando bem alto a letra. Chão de Giz me toca absurdamente e nem sei porque.
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Praça de alimentação cheia. Vontade de voltar. É da companhia desses seres humanos extremamente humanos que preciso? Barulheira. Tudo cheio e sem mesa. Não. Vou voltar. Vou pra fila do Bob´s pedir hambúrgueres para viagem. Não. Desisto do Bob´s. Insisto em comer no caos. Comida a quilo do Viena. Não há mesas. Dou duas voltas pela praça lotada. Nada. Noto um ou dois olhares de mulheres interessantes. Cogito na hipótese de perguntar se uma delas estava sozinha para sentar junto dela, mas antes mesmo de achar ridículo ou forçação de barra, minhas pernas já me fazem seguir andando. Acho uma mesa. Sento. Como. Barulho. Quente. Esbarram em mim de quando em vez os passantes. Nota mental: comer em casa até a morte quando estiver sozinho. Pedem cadeiras. Deixo levarem. E, para culminar, dois homens perguntam se eu estou sozinho. Digo que sim. Sentam na mesa de 4 lugares. Noto que podia ter feito isso com as mulheres sozinhas nas mesas. Que não é tão estranho. Queria ter comida de novo no prato para fazer, mas não tenho. Peço licença e levanto. Sou educado. Lembro que um deles não pediu licença ao sentar. Deixo minha bandeja com dejetos na mesa. Vontade de comer sorvete, mas não há no Bob´s, o Mc Donald´s fechou e o sorvete a quilo está com filas monstruosas. Ando. Cara de perdido. Pena de mim. Olho pessoas, chão, vitrine, nada que interesse muito. Casas Bahia. Penso que estou tão triste que não quero descontar isso consumindo. Comprar não é ser feliz. E assim adio o prazer novamente.
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Volto pra casa, anoitecendo. Desisti da fila do Bob´s. Vou jantar pão e água em casa mesmo. Saio do shopping e vejo Sheila Mello gigante nos outdoors com a bunda empinada. Não é possível a um heterossexual não olhar. Será que não pensam na quantidade de gente que deve morrer no trânsito com uns outdoors assim?
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E agora, nesta silenciosa noite de domingo final, ainda com uma calma estranha, como que conformado com a morte inevitável na manhã seguinte, me pergunto, calmamente, que necessidade é essa que tenho de escrever. Forte, muito forte. Supera a falta de um computador em meu ap.
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Vi um documentário sobre John Lennon, que tinha um quarto em um de seus imóveis com temperatura controlada para preservar seus casacos de pele, pensei em Drummond, funcionário público da ditadura e me acalmei quanto a trabalhar com Marketing para sobreviver.
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Sensação de estar sempre na véspera do dia da educação física no colégio.
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Sim, a família tende a cultivar carinhosamente os problemas, dar-lhes afeto e alimento... E viver reclamando deles. Noto alguma semelhança para comigo, mas eu tenho a dádiva do rompante irado de quando em vez... Rompo com tudo.
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Simplesmente não sei mais é ficar sozinho. No apartamento, me desespero procurando um filme, pois só um filme me consegue tirar um pouco do semi-pânico, da sensação de não gostar de estar ali, sozinho, sem fazer algo que me dê um mínimo de prazer... Sem companhia. Até a leitura é complicada. E se o filme não for muito bom também é complicado... Eu paro pelo meio, penso em lavar a louça. Não lavo. Penso que deve ter coisa melhor em outro canal... Estranho não ter que ler nada por obrigação (sem mais provas)... Como biscoito doce. Pego o guaraná na geladeira. Mudo de canal. Como. Escovo os dentes. Tento ler. Tempo não passa. Guardo o guaraná pra não esquentar. Acho um filme que começará em meia hora. Como demora a passar meia hora... Tento resistir a comer um pouco de biscoito salgado, para comer junto com o filme. Não resisto e como antes. Pego o guaraná na geladeira. Não lavo a louça. Como talvez tentar tapar o vazio existencial de estar sozinho... Como e escovo os dentes de novo. O que me falta? O que me falta?
---
No caminho para Benfica, um ônibus escolar, com crianças de colégio público está bem na minha frente. Um grupo me dá adeus. Temo estarem me sacaneando automaticamente (resquícios do medo do ridículo). Mas dou tchau também. Elas sorriem, fazendo sinal de positivo. Faço também. Vou seguindo o ônibus. A viagem parece mais curta. Um mínimo de interação com outro... Ainda tenho resquícios de outros motoristas não entenderem nada. Uma menininha de boné rosa não para de sorrir e dar adeus e parecer feliz com minha resposta. Na certa, a multidão de carros com tímidos não libertos não pode dar um tchau fora do padrão para ela. Ela não pára, aliás. Sinal vermelho longo... Começo a me encolher, olhar pra outros lados... O sinal abre. Passo o ônibus.
---
O meu silêncio era mais para analisar porque eu estava tão silencioso e me sentindo tão sozinho, triste, magoado... E, com isso, ela ficava mais silenciosa também, e acabou que vi que não adiantava nada me silenciar. Falei então tudo... Ela arrumou desculpinhas pro atraso, pro fim de ano, pra todas as merdas, como sempre. Então resolvi que se ela não me beijasse, se não tomasse a iniciativa, seria o fim de qualquer merda entre nós. Não beijou, a parva, aquele poste que vê filme de arte cheio de gente apaixonada mas não consegue se apaixonar. Não beijou. Merda. Mandei torpedo da ponte Rio-Niterói quase chorando no trânsito (sem conseguir, porém, que as lágrimas saltassem) dizendo que por não me beijar ela tinha me perdido. Ela ainda respondeu que não tinha clima ou outra desculpa e falei que agora, para ela me ver de novo, ela tinha que nascer de novo. Adoro, pelo menos, dar a última cortada depois da merda feita. Mas, como diria Leminski, não quero aprender com esse erro e não errar mais, quero errar mais! Pelo menos estou vivendo!
(Fabio Rocha - 2005)
Pelo menos o apartamento era seu, assim como a dor e todas as vantagens e desvantagens que têm as raras pessoas que optam por tomar posse de suas próprias escolhas.
Habituado a ser sempre um robô guiado por entidades que agora não conseguia identificar, estranhava - chegava a ficar angustiado - com a escolha de pequenos atos: escovar os dentes ou lavar a louça?
Quando seus pensamentos inimigos se desviavam dessas questões aparentemente irrelevantes (mas angustiantes), se voltavam para o medo, provocado inicialmente por um estalo assustador na garrafa plástica de dois litros de guaraná diet:
- E se essa cadeira meia bamba cair, quem me socorre? E se eu engasgar trancado aqui sozinho? Vou morrer...
Mas também sentia que estava ganhando algo. Apesar de toda a dificuldade, estava se sentindo orgulhoso de conseguir esquentar uma quentinha sua num fogão seu... De sobreviver a um local sem TV nem internet... De usar reticências sem se preocupar com seu estilo... E de escrever ouvindo música clássica, no micro extremamente sem internet, sem ser interrompido, sem lavar a louça nem escovar os dentes, sentindo o nascimento de algo bom no meio daquelas longas frases.
Caso existisse, Deus devia estar sozinho quando criou o universo. Precisava mesmo era se encontrar.
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Mudando o tema, tô meio tonto. Puta que pariu, meio tonto. Que merda. Que fiz eu, que me preocupa, que me entontece? Não... Admitir que estou tonto é fortalecer a tontura. Eu vinha vencendo as tentativas dela voltar fingindo que não havia nada. Não há nada. Nada.
Telefone tocou junto com uma piscada de alguém entrando no MSN. Fecho essa janela? Olho o MSN? Atendo?
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Arte. Respiro arte... O trabalho aqui se torna cada vez menos. Eu sou arte, pensamento, sentir. Nada de números e vendas e análises...
Sons no corredor. Trânsito lá fora. Preguiça de escovar os dentes depois da barra de cereal (cara demais, aliás, não compro mais). O corredor é que preocupa. Quem pode entrar? O que pode cobrar? Tenho feito tão pouco aqui... Só pode vir um castigo. Já consigo ouvir meu inconsciente. Como se o mundo fosse assim tão lógico: crime e castigo. Um bom título de livro.
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Tá ficando abafado. Preguiça de levantar e ligar o ar condicionado velho sem termostato (o máximo ou o mínimo, tudo ou nada, inferno ou céu, a pílula azul ou a vermelha, como eu). Levanto e ligo.
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Me pergunto por que suo e o que procuro e procuro... Não, nem me pergunto mais.
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Nem me pergunto mais por que não posso ir ao cinema sozinho, ser feliz sozinho. Sei que não vou nem sou.
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Pronto, mal escrevi e perdeu o sentido. Releio. Mudar internamente algo ou mudar a vida, o trabalho, a localização geográfica na pátria? Olho a cama. Lençol azul. Chão por lavar. Minhas meias pretas dentro dos sapatos pretos. Cadê a luz?
De volta à angústia. Acho que perceber o que pode ser não adiantou muito.
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“Cabe a você decidir o que fazer com o tempo que lhe é dado.”
A frase de Gandalf ecoa novamente em meu cérebro. Desde o primeiro trailer do Senhor dos Anéis que seu efeito foi como o de um soco no meu estômago, um despertar bruto. Minha sensação de estar perdendo tempo... Que só agora acho que compreendo melhor, lendo Schopenhauer. Ele, como Buda, teve que decidir entre o conforto e verdade em certo momento. Buda renunciou à vida de riquezas num castelo para sair pelo mundo e iluminá-lo. E percebo agora, independente de meu caos nos relacionamentos, que não posso ser feliz trabalhando com Administração. Quero é ser, como Schopenhauer (alma irmã que tive o prazer de descobrir), um erudito: ler, ensinar, escrever, aprender... Coisas que me façam achar que tive uma vida quando estiver velho e sem sono.
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Essa força interna que acendeu foi tão forte, junto com a leitura de Schopenhauer, que o fim de semana foi bom pra caramba... Eu lendo e ouvindo música clássica e percebendo que não queria que meu celular mudo tocasse, nem nada futuro, nem nada passado... Feliz. Muito feliz. Fazendo algo que eu adoro: estar com gente inteligente. Passei o domingo com Schopenhauer.
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Mas, aí veio o melhor, o sonho... Um dos melhores sonhos de minha vida. Eu flutuava num celeiro ou cabana, à noite. As portas enormes abertas. Abaixo de mim, mais pra trás tinha gente que eu queria defender, lutar junto... E lá fora, pelas portas, a noite negra. E olhos amarelos e vermelhos (muitos) se abrindo e aproximando. Eu vejo uma espada estranha, aberta, sobre mim, vôo até ela, sem medo (com muito mais empolgação do que medo... Eu era forte, coincidentemente, pois acho que me fortaleci sendo eu mesmo e me bastando, sozinho comigo mesmo, durante o dia...). Agarro a espada aberta e junto suas pontas. Vira uma espada com duas lâminas. E bichos (ou homens?) começam a pular das trevas pára a luz da cabana-celeiro. E os corto... Deliciosamente, sou o herói voador com um espada dupla... Deliciosamente acordo...
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Hoje vim pro trabalho e a seqüência de músicas da MPB FM me fez, pela primeira vez, chorar no trânsito, cantando bem alto a letra. Chão de Giz me toca absurdamente e nem sei porque.
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Praça de alimentação cheia. Vontade de voltar. É da companhia desses seres humanos extremamente humanos que preciso? Barulheira. Tudo cheio e sem mesa. Não. Vou voltar. Vou pra fila do Bob´s pedir hambúrgueres para viagem. Não. Desisto do Bob´s. Insisto em comer no caos. Comida a quilo do Viena. Não há mesas. Dou duas voltas pela praça lotada. Nada. Noto um ou dois olhares de mulheres interessantes. Cogito na hipótese de perguntar se uma delas estava sozinha para sentar junto dela, mas antes mesmo de achar ridículo ou forçação de barra, minhas pernas já me fazem seguir andando. Acho uma mesa. Sento. Como. Barulho. Quente. Esbarram em mim de quando em vez os passantes. Nota mental: comer em casa até a morte quando estiver sozinho. Pedem cadeiras. Deixo levarem. E, para culminar, dois homens perguntam se eu estou sozinho. Digo que sim. Sentam na mesa de 4 lugares. Noto que podia ter feito isso com as mulheres sozinhas nas mesas. Que não é tão estranho. Queria ter comida de novo no prato para fazer, mas não tenho. Peço licença e levanto. Sou educado. Lembro que um deles não pediu licença ao sentar. Deixo minha bandeja com dejetos na mesa. Vontade de comer sorvete, mas não há no Bob´s, o Mc Donald´s fechou e o sorvete a quilo está com filas monstruosas. Ando. Cara de perdido. Pena de mim. Olho pessoas, chão, vitrine, nada que interesse muito. Casas Bahia. Penso que estou tão triste que não quero descontar isso consumindo. Comprar não é ser feliz. E assim adio o prazer novamente.
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Volto pra casa, anoitecendo. Desisti da fila do Bob´s. Vou jantar pão e água em casa mesmo. Saio do shopping e vejo Sheila Mello gigante nos outdoors com a bunda empinada. Não é possível a um heterossexual não olhar. Será que não pensam na quantidade de gente que deve morrer no trânsito com uns outdoors assim?
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E agora, nesta silenciosa noite de domingo final, ainda com uma calma estranha, como que conformado com a morte inevitável na manhã seguinte, me pergunto, calmamente, que necessidade é essa que tenho de escrever. Forte, muito forte. Supera a falta de um computador em meu ap.
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Vi um documentário sobre John Lennon, que tinha um quarto em um de seus imóveis com temperatura controlada para preservar seus casacos de pele, pensei em Drummond, funcionário público da ditadura e me acalmei quanto a trabalhar com Marketing para sobreviver.
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Sensação de estar sempre na véspera do dia da educação física no colégio.
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Sim, a família tende a cultivar carinhosamente os problemas, dar-lhes afeto e alimento... E viver reclamando deles. Noto alguma semelhança para comigo, mas eu tenho a dádiva do rompante irado de quando em vez... Rompo com tudo.
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Simplesmente não sei mais é ficar sozinho. No apartamento, me desespero procurando um filme, pois só um filme me consegue tirar um pouco do semi-pânico, da sensação de não gostar de estar ali, sozinho, sem fazer algo que me dê um mínimo de prazer... Sem companhia. Até a leitura é complicada. E se o filme não for muito bom também é complicado... Eu paro pelo meio, penso em lavar a louça. Não lavo. Penso que deve ter coisa melhor em outro canal... Estranho não ter que ler nada por obrigação (sem mais provas)... Como biscoito doce. Pego o guaraná na geladeira. Mudo de canal. Como. Escovo os dentes. Tento ler. Tempo não passa. Guardo o guaraná pra não esquentar. Acho um filme que começará em meia hora. Como demora a passar meia hora... Tento resistir a comer um pouco de biscoito salgado, para comer junto com o filme. Não resisto e como antes. Pego o guaraná na geladeira. Não lavo a louça. Como talvez tentar tapar o vazio existencial de estar sozinho... Como e escovo os dentes de novo. O que me falta? O que me falta?
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No caminho para Benfica, um ônibus escolar, com crianças de colégio público está bem na minha frente. Um grupo me dá adeus. Temo estarem me sacaneando automaticamente (resquícios do medo do ridículo). Mas dou tchau também. Elas sorriem, fazendo sinal de positivo. Faço também. Vou seguindo o ônibus. A viagem parece mais curta. Um mínimo de interação com outro... Ainda tenho resquícios de outros motoristas não entenderem nada. Uma menininha de boné rosa não para de sorrir e dar adeus e parecer feliz com minha resposta. Na certa, a multidão de carros com tímidos não libertos não pode dar um tchau fora do padrão para ela. Ela não pára, aliás. Sinal vermelho longo... Começo a me encolher, olhar pra outros lados... O sinal abre. Passo o ônibus.
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O meu silêncio era mais para analisar porque eu estava tão silencioso e me sentindo tão sozinho, triste, magoado... E, com isso, ela ficava mais silenciosa também, e acabou que vi que não adiantava nada me silenciar. Falei então tudo... Ela arrumou desculpinhas pro atraso, pro fim de ano, pra todas as merdas, como sempre. Então resolvi que se ela não me beijasse, se não tomasse a iniciativa, seria o fim de qualquer merda entre nós. Não beijou, a parva, aquele poste que vê filme de arte cheio de gente apaixonada mas não consegue se apaixonar. Não beijou. Merda. Mandei torpedo da ponte Rio-Niterói quase chorando no trânsito (sem conseguir, porém, que as lágrimas saltassem) dizendo que por não me beijar ela tinha me perdido. Ela ainda respondeu que não tinha clima ou outra desculpa e falei que agora, para ela me ver de novo, ela tinha que nascer de novo. Adoro, pelo menos, dar a última cortada depois da merda feita. Mas, como diria Leminski, não quero aprender com esse erro e não errar mais, quero errar mais! Pelo menos estou vivendo!
(Fabio Rocha - 2005)
Domingo, 5 de Agosto de 2007
POR TANTO
De vez em quando um pouco mais pra quando que pra onde me perco e tudo aquilo que tinha imaginado inicialmente fica no mesmo lugar do início dos tempos onde nasceu o todo que nunca nasceu por sempre existir mas isso é apenas uma fuga do tema do repetitivo tema do qual resolvi agora conscientemente fugir portanto
(Fabio Rocha - 05/08/2007)
(Fabio Rocha - 05/08/2007)
Sábado, 7 de Julho de 2007
MORPHEUS
Despertou quase lembrando de um sonho estranho. Algo a ver com um livro numa livraria, com capa bege, que amigos haviam recomendado e que parecia realmente bom pela contra-capa. Justamente essa história contada na contra-capa é que ele não conseguia lembrar agora desperto. Parecia tão boa e simples. Queria fazer dela seu romance. Baseado em sonhos reais. Mas não lembrava. De qualquer forma, foi escrever:
A cidade era bege. O tempo era incerto. As janelas fechadas escondiam o clima. Acordou. Não precisava de despertador. O primeiro pensamento foi o de organizar seu dia. Fez planos detalhados, levando em conta as três refeições e o dinheiro que carregaria com ele, já pensando nas probabilidades de assalto nas áreas que percorreria e os horários mais vazios para pegar o metrô. Parou de escovar os dentes e percebeu não haver água. Cuspiu e teve que suportar aquele gosto de pasta de dente persistente na boca. E ver aquele cuspe branco pegajoso vencendo a gravidade e o brilho de sua pia tão limpa. Não suportou. Com papel higiênico, limpou a pia. Até brilhar novamente. Foi se vestir, sem ter que escolher sua roupa, pois, para isso mesmo, ele só tinha o mesmo modelo e cor de camisas e calças: para não perder tempo escolhendo. Ao tentar abrir o armário, a maçaneta fica na sua mão. Não abre. Seu coração dispara. Sente uma presença maligna no quarto, ao notar tanta coisa saindo de seu controle. Calor. Destrava uma janela. Não abre. Suor. A porta. As quatro trancas da porta. Pingos no chão limpo. Destranca todas as trancas. Vira a maçaneta. Mas a porta, magicamente, não abre. Fica como que presa pelo lado de fora. Estaria a casa soterrada? A caixa de ferramentas. Treme. Derruba a metodicamente arrumada caixa de ferramentas em cima da cama. Chave de fenda. "Dá-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo." Alavanca na porta. Escapole. Dedo cortado. Dor. Medo. Sangue. Não abre. Força. Chão mais sujo ainda. Vontade. Reza ao Deus de sua avó. Calor. Insistência. Abre. Um passo pra fora, de cueca. Respiração tentando se acalmar. Luz estranha, bege. Sombra estranha em torno. Olho pra cima. Um piano me mata.
(Fabio Rocha - 7/7/2007)
A cidade era bege. O tempo era incerto. As janelas fechadas escondiam o clima. Acordou. Não precisava de despertador. O primeiro pensamento foi o de organizar seu dia. Fez planos detalhados, levando em conta as três refeições e o dinheiro que carregaria com ele, já pensando nas probabilidades de assalto nas áreas que percorreria e os horários mais vazios para pegar o metrô. Parou de escovar os dentes e percebeu não haver água. Cuspiu e teve que suportar aquele gosto de pasta de dente persistente na boca. E ver aquele cuspe branco pegajoso vencendo a gravidade e o brilho de sua pia tão limpa. Não suportou. Com papel higiênico, limpou a pia. Até brilhar novamente. Foi se vestir, sem ter que escolher sua roupa, pois, para isso mesmo, ele só tinha o mesmo modelo e cor de camisas e calças: para não perder tempo escolhendo. Ao tentar abrir o armário, a maçaneta fica na sua mão. Não abre. Seu coração dispara. Sente uma presença maligna no quarto, ao notar tanta coisa saindo de seu controle. Calor. Destrava uma janela. Não abre. Suor. A porta. As quatro trancas da porta. Pingos no chão limpo. Destranca todas as trancas. Vira a maçaneta. Mas a porta, magicamente, não abre. Fica como que presa pelo lado de fora. Estaria a casa soterrada? A caixa de ferramentas. Treme. Derruba a metodicamente arrumada caixa de ferramentas em cima da cama. Chave de fenda. "Dá-me uma alavanca e um ponto de apoio e moverei o mundo." Alavanca na porta. Escapole. Dedo cortado. Dor. Medo. Sangue. Não abre. Força. Chão mais sujo ainda. Vontade. Reza ao Deus de sua avó. Calor. Insistência. Abre. Um passo pra fora, de cueca. Respiração tentando se acalmar. Luz estranha, bege. Sombra estranha em torno. Olho pra cima. Um piano me mata.
(Fabio Rocha - 7/7/2007)
Quarta-feira, 13 de Junho de 2007
AR FALTO
Odeio dirigir.
Tendo a me sentir competindo... E esse meu lado competitivo, que é enorme, quer chegar antes, quer bater em toda kombi velha que viola as leis de trânsito desse mundo sem lei e ordem - ainda bem - amém.
Mas quando vou bem rápido, passando dos cento e vinte, se há uma música perfeita tocando, se estou sintonizado no momento presente, tendo a esticar os braços e me imaginar num vôo. Num vôo de verdade. Num vôo de vontade. Acontece mais de noite. Talvez eu morra, mas morro feliz.
Adoro dirigir.
(Fabio Rocha - 14/6/2007)
Tendo a me sentir competindo... E esse meu lado competitivo, que é enorme, quer chegar antes, quer bater em toda kombi velha que viola as leis de trânsito desse mundo sem lei e ordem - ainda bem - amém.
Mas quando vou bem rápido, passando dos cento e vinte, se há uma música perfeita tocando, se estou sintonizado no momento presente, tendo a esticar os braços e me imaginar num vôo. Num vôo de verdade. Num vôo de vontade. Acontece mais de noite. Talvez eu morra, mas morro feliz.
Adoro dirigir.
(Fabio Rocha - 14/6/2007)
Quinta-feira, 29 de Março de 2007
POEMA CERTO POEMA
Uma coisa boa neste fim de semana foi que aparei as unhas inclusive a dos pés e cortei a barba o relacionamento não pois nos abraçamos como se o calor do corpo do outro fosse necessário para a sobrevivência na realidade fria e carinhosamente falamos palavras como navalhas cortando o resto de futuro com sangue e dor e dor (um pouco de orgulho e raiva) e carinho no abraço gostoso que parecia eterno até o outro corte em que mastiguei minhas bochechas cheias de aftas e ela foi pra casa e não me importei se chegou ou morreu no caminho dormi tranqüilo como um anjo revoltado o domingo quase me deu gastrite e acordei quase tonto segunda-feira sem saber se ia ou vinha nem se a tinha ou não a tinha na verdade não acredito em fim nem em mim mas está tudo definitivamente quase acabado mesmo sem nenhum de nós dois acreditar ou saber o que quer talvez que vontade de ligar pra ela ou não quem sabe?
(Fabio Rocha - 3/11/2003)
(Fabio Rocha - 3/11/2003)
AUTOBIOGRAFILHA ALHEIA
JANEIRO:
Era sábado. Sentei-me ao lado esquerdo do demônio. As luzes se apagaram. Fez frio. Senti que se iniciasse o ritual de conquista com o ser a minha direita, eu morreria. Era um demônio, cacete!
Ia morrer, então. Estava muito frio e eu não era eu. Não era mais eu. Eu estava morto. Meu peito se abriu e muitos corvos saíram voando e atravessando as paredes. Ninguém notou: estava escuro (e frio). Os pássaros saíram para anunciar a minha morte e pedir socorro. Ninguém ouviu: estava escuro (e frio). Sorri levemente. Eu estava pronto, e comecei.
O demônio não quis meu beijo, mas alisou a minha mão. Ao menos o filme era bom. Horas depois, gastei mais dinheiro com comida e gás (sim, meu carro é à gás agora, pois tenho que me adaptar ao meu baixo salário) e subi em seu apartamento alugado num velho prédio de Copacabana. Fui pra varanda.
Nunca vi tantas pessoas solitárias nos prédios adiante. Que vidas vazias abertas expostas frias duras estranhas... Dava para ver até os seus olhos. Olhos secos que nem se importam mais em fechar as cortinas. Olhos que pareciam meus, atrás dos vidros.
O capeta era rico. Era um fato. Era de família nordestina podre de rica. O quanto isso pode ter me influenciado, junto com o excomungado do Henry Miller? O que fazia eu ali? Estaria eu tentando algo com um ser demoníaco apenas porque era rico e sabia ler e filosofar? (O oposto de minha ex, pobre e bela, que também sabia ler e filosofar?) O que fazia eu ali? O padrão que a sociedade queria me empurrar eu estava aceitando? O que fazia eu ali? Me vi demônio.
O outro demônio não-eu chamou para ver TV na sua cama e não quis meu beijo. Comi pizza (a única porra que ela pagou nessa história) e fui logo embora. Impossível comer um demônio fugidio... Se irritou porque eu comi pizza e fui logo embora e me ligou noite afora. Queria que eu investisse nele muitos alisamentos de mão e abraços até conquistar um beijo... E muitos calorosos beijos contidos até conquistar uma foda... E muitas fodas até que o nosso lindo e divino amor com lantejoulas morresse, como sempre acontece. Achei o caminho meio longo, ainda mais se tratando de um demônio.
Mas era um demônio angelical e romântico como eu um dia fui. Nem senti raiva. Só vou pensar duas vezes antes de marcar encontros com demônios. Bastam os meus internos.
FEVEREIRO:
E eu aqui na minha adolescência aos 30 anos, falo 3 idiomas, 2 faculdades, domínio de informática, blá, blá, blá... e só aparece emprego onde eu não consigo usar NADA disso e ganhar pouco. Contratam graduados para fazer funções técnicas possivelmente porque o ensino técnico seja ainda pior que o das faculdades... E olha que fiz pública!
Ando pelo metrô notando a expressão de semimorte nos olhos das pessoas
dentro desse maldito sistema...
E se você ganhar mais, vai gastar mais. Continuará tudo na mesma. Só queria
poder juntar um pingo de grana pra ter a esperança de morar sozinho algum dia aos 80 ou 90 anos. Mas o futuro não existe. O passado não importa e tudo que há é a porta do agora, que se deve abrir com PAIXÃO. O que é a vida sem paixão? É a expressão das pessoas no metrô... Deve haver mais. Tem que haver mais!
Estou a um passo de chutar o balde, largar tudo e viver de arte, nem que seja mendigando a venda de xerox de poemas por 2 reais! Já abandonei meu relógio de pulso do pulso: o primeiro passo. Tento não ver TV. Gasto pouco, economizo pouco e vivo pouco. Estou a um passo de sair da Matrix e acordar. Aulas particulares, revisões de texto, mendicância... vou tentar viver disso. A data é março. Interessados entrar em contato por email, pois meu celular é da empresa.
ABRIL:
O estranho é que é o mesmo quarto, e estou sozinho nele novamente. Sem relógio, celular ou emprego. No entanto, só consigo sentir coisas positivas. A noite já chegou lá fora. Famílias jantam em suas casas. Alguém sentirá a felicidade quente e sem motivo que passa por essa fase da minha vida?
Deixo Saramago um pouco de lado, para viajar comigo mesmo. Olho as estantes, livros, fitas VHS, quadros e lembro de detalhes mínimos ligados a cada objeto. Ouço música clássica. Não tenho pressa, nem fujo dos pensamentos que vão se encadeando tranqüilamente, lembranças alegres que trazem ao quarto iluminado de amarelo pela lâmpada central pessoas com quem me minha alma se encontrou em profundidade alguma vez e, por isso mesmo, ainda levo sua luz comigo.
Aprecio pela primeira vez o teto irregular de que sempre desgostei. As sombras das estalactites de cimento, as marcas das tábuas que foram a base para o teto certa vez. Pode-se imaginar perfeitamente a madeira olhando-se sua obra. Será o mesmo com os escritores? Será que dentre as ranhuras das obras dos poetas fingidores como Pessoa, olhando com calma, podemos ver sua essência, sua verdade?
Sinto como se houvesse dentro de mim uma grande transformação, como se castelos e muros estivessem caindo e uma grande e calma floresta ganhasse terreno. Do lado de fora, percebo que sempre tive asas, mas nunca as havia usado. Talvez por tanto procurá-las racionalmente. É hora de escrever, sair da gaiola...
***
Sanhaços e sabiás cantam mais à tarde que pela manhã. Ou talvez eu ouça mais após o almoço. O pé na estrada de barro é uma sensação boa. O motociclista que passa não me entende. Saio sem carro nem barro. Estrondo estranho o da moto. Estranho eu. Silêncio.
***
O corredor era longo e cinza. Faraônica faculdade pública... Seus passos ecoavam pelas paredes que pareciam infinitas. Ane era triste. Antes de tudo, triste.
Por mais que se escondesse atrás de sorrisos, por mais que falasse, acenasse, circulasse, conhecesse a todos - literalmente todos... Por baixo, era só, e não gostava de ser só.
Da faculdade para a academia, da academia para o estágio, do estágio para casa. Em casa, não havia para onde fugir de si mesma. Por isso, evitava a casa, ia pra barzinho com amigas ou boates sempre que podia. Não se pode parar numa fuga. “Dormir é perder tempo.”, se enganava quase consciente de que se enganava.
Ane percorreu estranhamente vagarosa o final do corredor, quase chegando ao hall dos elevadores. Parou. Voltou-se para a sacada. Pulou. Era tarde.
***
Quando o sol tocava sua pele, o mundo, a vida, tudo fazia sentido. O pé na areia morna era como um fio-terra, eliminando de seu sinuoso corpo toda a energia negativa acumulada durante a semana de trabalho no escritório. Secretária. A seu lado, o namorado olha o mar.
- Me beija, diz ela.
Ele se aproxima.
- Não, não quero qualquer beijo. Quero um beijo total, uma entrega, um toque de almas e línguas...
- Não sei fazer isso. Sei beijar, Andréa. Só.
- Não me basta. Não quero só isso... E pensando bem, não quero mais você.
Olhou para a areia talvez para evitar os olhos dele, estranhamente silenciosos.
- Não me procure mais.
Levantou e foi para casa. Na segunda, largou o emprego. Estava insatisfeita com sua insatisfação constante, total, eterna... Insatisfeita consigo mesma por não tentar mudar, fazer o que gostava...
Hoje Daniela mora em Copacabana, vive na praia e faz o que mais gosta para viver, sem o menor problema ou dilema moral: faz sexo. Só lhe falta um homem que beije com a alma.
***
Que diabos quero eu fazer como esses textos sem conexão e curtos demais? Estou sempre correndo atrás de um romance, pois pode ser que venda (diferentemente das poesias) que acabam virando contos desconexos, curtos e ruins.
Essas estrelinhas seriam capítulos? *** Três para dar sorte:
***
(Fabio Rocha - 2004)
Era sábado. Sentei-me ao lado esquerdo do demônio. As luzes se apagaram. Fez frio. Senti que se iniciasse o ritual de conquista com o ser a minha direita, eu morreria. Era um demônio, cacete!
Ia morrer, então. Estava muito frio e eu não era eu. Não era mais eu. Eu estava morto. Meu peito se abriu e muitos corvos saíram voando e atravessando as paredes. Ninguém notou: estava escuro (e frio). Os pássaros saíram para anunciar a minha morte e pedir socorro. Ninguém ouviu: estava escuro (e frio). Sorri levemente. Eu estava pronto, e comecei.
O demônio não quis meu beijo, mas alisou a minha mão. Ao menos o filme era bom. Horas depois, gastei mais dinheiro com comida e gás (sim, meu carro é à gás agora, pois tenho que me adaptar ao meu baixo salário) e subi em seu apartamento alugado num velho prédio de Copacabana. Fui pra varanda.
Nunca vi tantas pessoas solitárias nos prédios adiante. Que vidas vazias abertas expostas frias duras estranhas... Dava para ver até os seus olhos. Olhos secos que nem se importam mais em fechar as cortinas. Olhos que pareciam meus, atrás dos vidros.
O capeta era rico. Era um fato. Era de família nordestina podre de rica. O quanto isso pode ter me influenciado, junto com o excomungado do Henry Miller? O que fazia eu ali? Estaria eu tentando algo com um ser demoníaco apenas porque era rico e sabia ler e filosofar? (O oposto de minha ex, pobre e bela, que também sabia ler e filosofar?) O que fazia eu ali? O padrão que a sociedade queria me empurrar eu estava aceitando? O que fazia eu ali? Me vi demônio.
O outro demônio não-eu chamou para ver TV na sua cama e não quis meu beijo. Comi pizza (a única porra que ela pagou nessa história) e fui logo embora. Impossível comer um demônio fugidio... Se irritou porque eu comi pizza e fui logo embora e me ligou noite afora. Queria que eu investisse nele muitos alisamentos de mão e abraços até conquistar um beijo... E muitos calorosos beijos contidos até conquistar uma foda... E muitas fodas até que o nosso lindo e divino amor com lantejoulas morresse, como sempre acontece. Achei o caminho meio longo, ainda mais se tratando de um demônio.
Mas era um demônio angelical e romântico como eu um dia fui. Nem senti raiva. Só vou pensar duas vezes antes de marcar encontros com demônios. Bastam os meus internos.
FEVEREIRO:
E eu aqui na minha adolescência aos 30 anos, falo 3 idiomas, 2 faculdades, domínio de informática, blá, blá, blá... e só aparece emprego onde eu não consigo usar NADA disso e ganhar pouco. Contratam graduados para fazer funções técnicas possivelmente porque o ensino técnico seja ainda pior que o das faculdades... E olha que fiz pública!
Ando pelo metrô notando a expressão de semimorte nos olhos das pessoas
dentro desse maldito sistema...
E se você ganhar mais, vai gastar mais. Continuará tudo na mesma. Só queria
poder juntar um pingo de grana pra ter a esperança de morar sozinho algum dia aos 80 ou 90 anos. Mas o futuro não existe. O passado não importa e tudo que há é a porta do agora, que se deve abrir com PAIXÃO. O que é a vida sem paixão? É a expressão das pessoas no metrô... Deve haver mais. Tem que haver mais!
Estou a um passo de chutar o balde, largar tudo e viver de arte, nem que seja mendigando a venda de xerox de poemas por 2 reais! Já abandonei meu relógio de pulso do pulso: o primeiro passo. Tento não ver TV. Gasto pouco, economizo pouco e vivo pouco. Estou a um passo de sair da Matrix e acordar. Aulas particulares, revisões de texto, mendicância... vou tentar viver disso. A data é março. Interessados entrar em contato por email, pois meu celular é da empresa.
ABRIL:
O estranho é que é o mesmo quarto, e estou sozinho nele novamente. Sem relógio, celular ou emprego. No entanto, só consigo sentir coisas positivas. A noite já chegou lá fora. Famílias jantam em suas casas. Alguém sentirá a felicidade quente e sem motivo que passa por essa fase da minha vida?
Deixo Saramago um pouco de lado, para viajar comigo mesmo. Olho as estantes, livros, fitas VHS, quadros e lembro de detalhes mínimos ligados a cada objeto. Ouço música clássica. Não tenho pressa, nem fujo dos pensamentos que vão se encadeando tranqüilamente, lembranças alegres que trazem ao quarto iluminado de amarelo pela lâmpada central pessoas com quem me minha alma se encontrou em profundidade alguma vez e, por isso mesmo, ainda levo sua luz comigo.
Aprecio pela primeira vez o teto irregular de que sempre desgostei. As sombras das estalactites de cimento, as marcas das tábuas que foram a base para o teto certa vez. Pode-se imaginar perfeitamente a madeira olhando-se sua obra. Será o mesmo com os escritores? Será que dentre as ranhuras das obras dos poetas fingidores como Pessoa, olhando com calma, podemos ver sua essência, sua verdade?
Sinto como se houvesse dentro de mim uma grande transformação, como se castelos e muros estivessem caindo e uma grande e calma floresta ganhasse terreno. Do lado de fora, percebo que sempre tive asas, mas nunca as havia usado. Talvez por tanto procurá-las racionalmente. É hora de escrever, sair da gaiola...
***
Sanhaços e sabiás cantam mais à tarde que pela manhã. Ou talvez eu ouça mais após o almoço. O pé na estrada de barro é uma sensação boa. O motociclista que passa não me entende. Saio sem carro nem barro. Estrondo estranho o da moto. Estranho eu. Silêncio.
***
O corredor era longo e cinza. Faraônica faculdade pública... Seus passos ecoavam pelas paredes que pareciam infinitas. Ane era triste. Antes de tudo, triste.
Por mais que se escondesse atrás de sorrisos, por mais que falasse, acenasse, circulasse, conhecesse a todos - literalmente todos... Por baixo, era só, e não gostava de ser só.
Da faculdade para a academia, da academia para o estágio, do estágio para casa. Em casa, não havia para onde fugir de si mesma. Por isso, evitava a casa, ia pra barzinho com amigas ou boates sempre que podia. Não se pode parar numa fuga. “Dormir é perder tempo.”, se enganava quase consciente de que se enganava.
Ane percorreu estranhamente vagarosa o final do corredor, quase chegando ao hall dos elevadores. Parou. Voltou-se para a sacada. Pulou. Era tarde.
***
Quando o sol tocava sua pele, o mundo, a vida, tudo fazia sentido. O pé na areia morna era como um fio-terra, eliminando de seu sinuoso corpo toda a energia negativa acumulada durante a semana de trabalho no escritório. Secretária. A seu lado, o namorado olha o mar.
- Me beija, diz ela.
Ele se aproxima.
- Não, não quero qualquer beijo. Quero um beijo total, uma entrega, um toque de almas e línguas...
- Não sei fazer isso. Sei beijar, Andréa. Só.
- Não me basta. Não quero só isso... E pensando bem, não quero mais você.
Olhou para a areia talvez para evitar os olhos dele, estranhamente silenciosos.
- Não me procure mais.
Levantou e foi para casa. Na segunda, largou o emprego. Estava insatisfeita com sua insatisfação constante, total, eterna... Insatisfeita consigo mesma por não tentar mudar, fazer o que gostava...
Hoje Daniela mora em Copacabana, vive na praia e faz o que mais gosta para viver, sem o menor problema ou dilema moral: faz sexo. Só lhe falta um homem que beije com a alma.
***
Que diabos quero eu fazer como esses textos sem conexão e curtos demais? Estou sempre correndo atrás de um romance, pois pode ser que venda (diferentemente das poesias) que acabam virando contos desconexos, curtos e ruins.
Essas estrelinhas seriam capítulos? *** Três para dar sorte:
***
(Fabio Rocha - 2004)
Quarta-feira, 28 de Março de 2007
OS ASTRONAUTAS DA BÍBLIA
DATAS:
-- 1896/1897: Misteriosas aeronaves em forma de charuto são observadas nos EUA - Primeira onda de OVNIs.
-- 1908: dia 30 de junho (Rússia) - Algo caiu do céu e explodiu na região chamada Tunguska (Sibéria). Três mil quilômetros quadrados de floresta foram atingidos. Cientistas estimaram a potência da explosão como equivalente à de uma bomba nuclear de 20 megatons. Houve sinais de radioatividade no solo. Até hoje, continua-se sem saber o que atingiu a região.
-- 1909: Segunda grande onda de avistamentos (em todo o mundo).
-- 1917: Dia 13 de outubro (Fátima-Portugal) - 50 mil pessoas, que se reuniram para esperar uma prometida aparição da Virgem Maria (promessa feita aos 3 jovens camponeses que teriam falado com a Virgem), viram as nuvens se dissiparem para surgir um enorme disco prateado emitindo calor, descer quase até o solo e subir, desaparecendo. A Igreja aceitou o fato como milagre.
-- 1944: Surgem os avistamentos durante a Segunda Guerra de bolas luminosas, as chamadas sondas ufológicas (ou “foo-fighters”, “caças fu”, “bolas Kraut”, etc.), que costumavam seguir aviões e sobrevoar bases militares. Os aliados chegaram a pensar que fossem armas secretas dos alemães e vice-versa.
-- 1946: No meio da Guerra Fria, surge uma onda de OVNIs que deixavam rastros de fumaça (os “foguetes fantasma” ou “bombas assombradas”).
-- 1947: - dia 24 de junho - Keneth Arnold abre uma nova onda de avistamentos - Surge o termo “flying saucer” (pires voador), conhecido no Brasil como Disco Voador.
- dia 2 de julho - Caso Roswell (Roswell - Novo México - EUA) - CIA fica com corpos de ETs acidentados.
- Final do ano -Projeto Sign (EUA) - Primeiro projeto secreto de estudos dos OVNIs po parte do governo - OVNIs seriam fenômenos naturais - Desorganização e inexperiência: fracasso.
-- 1949: - Projeto Grudge (EUA) - Idêntico ao Sign.
- Projeto Twinkle (EUA) - Posto de observação de OVNIs - Nada acharam.
-- 1950: - Keyhoe diz que o governo americano escondia informações sobre os OVNIs.
- Primeiros relatos de avistamentos.
- Várias testemunhas ou pesquisadores de OVNIs dizem ser visitadas por homens vestidos de negro e sem cabelo, que pareciam robôs e tentavam convencer as pessoas, nada amistosamente, a se esquecerem dos OVNIs.
- dia 11 de maio - 19:30 - A mulher de um agricultor (Paul Trent) tira a primeira foto reconhecida como autêntica por vários investigadores de um OVNI (reconhecida até hoje como verdadeira. Analisada até por computadores)
-- 1951: - Projeto Grudge é reativado - surgem os “formulário-padrão”.
- Lubbock - Texas - As “Luzes de Lubbock” - Durante duas semanas, muitas pessoas viram OVNIs.
-- 1952: - Nova onda de avistamentos.
- Aparece Adamski, um dos casos mais discutidos na Ufologia, que se dizia contatado por venusianos e alertava para o perigo do uso de armas atômicas.
- Projeto Blue Book (EUA) - Parecia mais sério, mas não admitia a existência dos OVNIs.
- Formação do Grupo Apro de pesquisas (EUA).
- Surge Menzel (EUA), que tenta explicar várias aparições, como as “Luzes” de Lubbock como fenômenos naturais.
-- 1953: - Política do Governo dos EUA de convencimento da população da inexistência dos OVNIs (medo dos soviéticos atacarem e serem confundidos com discos voadores).
- Relatório Robertson (EUA) - Início da maior campanha para desmentir a existência dos OVNIs - Relatos abafados.
-- 1955: Caso Kelly-Hopkinsville - Fazendeiros atacam ETs (que se mostraram fora de suas naves) com armas em Kentucky (EUA). Um caso clássico de contato imediato de terceiro grau.
-- 1957: Rapto de Antônio Villas Boas (Brasil) - Um marco na Ufologia nacional.
-- 1960: Primeiros relatos de seqüestros nos EUA.
-- 1961: 19 de setembro - New Hampshire (EUA) - Betty e Barney Hill são seqüestrados por um OVNI numa estrada.
-- 1965: Incidente de Exeter - Um enorme objeto em forma oval, emitindo luz vermelha foi visto por muitas testemunhas, inclusive policiais, também em New Hampshire. A Aeronáutica tentou, sem sucesso, explicar o fenômeno.
-- 1966: Ann Arbor - Michigan (EUA) - “Caso dos gases dos pântanos” - Mais de 140 testemunhas viram o OVNI, e Hynek sugeriu que o que todos viram foi gás dos pântanos (o “fogo-fátuo”, “boitatá” ou “joão-galafoice”).
-- 1968: - O próprio Hynek, do Blue Book, admite a “confusão dos últimos 20 anos”.
(Fabio Rocha, ufologando, 1998)
-- 1896/1897: Misteriosas aeronaves em forma de charuto são observadas nos EUA - Primeira onda de OVNIs.
-- 1908: dia 30 de junho (Rússia) - Algo caiu do céu e explodiu na região chamada Tunguska (Sibéria). Três mil quilômetros quadrados de floresta foram atingidos. Cientistas estimaram a potência da explosão como equivalente à de uma bomba nuclear de 20 megatons. Houve sinais de radioatividade no solo. Até hoje, continua-se sem saber o que atingiu a região.
-- 1909: Segunda grande onda de avistamentos (em todo o mundo).
-- 1917: Dia 13 de outubro (Fátima-Portugal) - 50 mil pessoas, que se reuniram para esperar uma prometida aparição da Virgem Maria (promessa feita aos 3 jovens camponeses que teriam falado com a Virgem), viram as nuvens se dissiparem para surgir um enorme disco prateado emitindo calor, descer quase até o solo e subir, desaparecendo. A Igreja aceitou o fato como milagre.
-- 1944: Surgem os avistamentos durante a Segunda Guerra de bolas luminosas, as chamadas sondas ufológicas (ou “foo-fighters”, “caças fu”, “bolas Kraut”, etc.), que costumavam seguir aviões e sobrevoar bases militares. Os aliados chegaram a pensar que fossem armas secretas dos alemães e vice-versa.
-- 1946: No meio da Guerra Fria, surge uma onda de OVNIs que deixavam rastros de fumaça (os “foguetes fantasma” ou “bombas assombradas”).
-- 1947: - dia 24 de junho - Keneth Arnold abre uma nova onda de avistamentos - Surge o termo “flying saucer” (pires voador), conhecido no Brasil como Disco Voador.
- dia 2 de julho - Caso Roswell (Roswell - Novo México - EUA) - CIA fica com corpos de ETs acidentados.
- Final do ano -Projeto Sign (EUA) - Primeiro projeto secreto de estudos dos OVNIs po parte do governo - OVNIs seriam fenômenos naturais - Desorganização e inexperiência: fracasso.
-- 1949: - Projeto Grudge (EUA) - Idêntico ao Sign.
- Projeto Twinkle (EUA) - Posto de observação de OVNIs - Nada acharam.
-- 1950: - Keyhoe diz que o governo americano escondia informações sobre os OVNIs.
- Primeiros relatos de avistamentos.
- Várias testemunhas ou pesquisadores de OVNIs dizem ser visitadas por homens vestidos de negro e sem cabelo, que pareciam robôs e tentavam convencer as pessoas, nada amistosamente, a se esquecerem dos OVNIs.
- dia 11 de maio - 19:30 - A mulher de um agricultor (Paul Trent) tira a primeira foto reconhecida como autêntica por vários investigadores de um OVNI (reconhecida até hoje como verdadeira. Analisada até por computadores)
-- 1951: - Projeto Grudge é reativado - surgem os “formulário-padrão”.
- Lubbock - Texas - As “Luzes de Lubbock” - Durante duas semanas, muitas pessoas viram OVNIs.
-- 1952: - Nova onda de avistamentos.
- Aparece Adamski, um dos casos mais discutidos na Ufologia, que se dizia contatado por venusianos e alertava para o perigo do uso de armas atômicas.
- Projeto Blue Book (EUA) - Parecia mais sério, mas não admitia a existência dos OVNIs.
- Formação do Grupo Apro de pesquisas (EUA).
- Surge Menzel (EUA), que tenta explicar várias aparições, como as “Luzes” de Lubbock como fenômenos naturais.
-- 1953: - Política do Governo dos EUA de convencimento da população da inexistência dos OVNIs (medo dos soviéticos atacarem e serem confundidos com discos voadores).
- Relatório Robertson (EUA) - Início da maior campanha para desmentir a existência dos OVNIs - Relatos abafados.
-- 1955: Caso Kelly-Hopkinsville - Fazendeiros atacam ETs (que se mostraram fora de suas naves) com armas em Kentucky (EUA). Um caso clássico de contato imediato de terceiro grau.
-- 1957: Rapto de Antônio Villas Boas (Brasil) - Um marco na Ufologia nacional.
-- 1960: Primeiros relatos de seqüestros nos EUA.
-- 1961: 19 de setembro - New Hampshire (EUA) - Betty e Barney Hill são seqüestrados por um OVNI numa estrada.
-- 1965: Incidente de Exeter - Um enorme objeto em forma oval, emitindo luz vermelha foi visto por muitas testemunhas, inclusive policiais, também em New Hampshire. A Aeronáutica tentou, sem sucesso, explicar o fenômeno.
-- 1966: Ann Arbor - Michigan (EUA) - “Caso dos gases dos pântanos” - Mais de 140 testemunhas viram o OVNI, e Hynek sugeriu que o que todos viram foi gás dos pântanos (o “fogo-fátuo”, “boitatá” ou “joão-galafoice”).
-- 1968: - O próprio Hynek, do Blue Book, admite a “confusão dos últimos 20 anos”.
(Fabio Rocha, ufologando, 1998)
NOITE
A noite estava fria... Mais ainda ali na beira do lago. Nas árvores, os pássaros se protegiam, se encolhiam entre suas penas. O luar passava entre as folhas em alguns pontos, dando uma impressão solene à mata, meio enfumaçada. O vento que balançava os galhos trazia aquele cheiro gostoso de mato à noite. Ouvia-se o suave farfalhar das folhas... Nuvens quase transparentes passavam na frente da lua cheia. Parecia um céu daqueles que só se vê no cinema.
Um rápido meteoro interrompeu a lentidão da natureza, mas só por segundos... Luca rabiscou alguma coisa em seu caderno. Olhou mais uma vez a paisagem e ficou paralisado, pensativo. Mesmo naquela escuridão, um observador mais atento sentiria o brilho da tristeza saindo de seus olhos. Nostálgico, escreveu mais um pouco, sob a luz do luar. Seu reflexo prateado na superfície do lago parecia o atrair... Como o fogo atrai uma mariposa. Então, calmamente, levantou, tirou toda a roupa e se jogou na água.
O som ínfimo do mergulho se perdeu entre os sons da mata, do lago, da noite. Pequeno como nosso mundo no universo infinito. Uma brisa suave fez as folhas das árvores e do caderno se agitarem, mas a última continuava ali, aberta para as estrelas lerem:
Reflexos e Reflexões
Na noite escura, algo se fortalece...
Ou apenas eu espero que isso aconteça.
Querendo me misturar às estrelas,
me jogo nas águas negras.
Mas a ilusão de estar entre os astros refletidos
nada adianta.
E o que eu esperava?
E nem a lua, nem as estrelas, nem um rápido morcego que passou tão rente ao lago que pareceu tocá-lo, viu Luca sair das águas gélidas naquela noite.
(Fabio Rocha - 1999)
Um rápido meteoro interrompeu a lentidão da natureza, mas só por segundos... Luca rabiscou alguma coisa em seu caderno. Olhou mais uma vez a paisagem e ficou paralisado, pensativo. Mesmo naquela escuridão, um observador mais atento sentiria o brilho da tristeza saindo de seus olhos. Nostálgico, escreveu mais um pouco, sob a luz do luar. Seu reflexo prateado na superfície do lago parecia o atrair... Como o fogo atrai uma mariposa. Então, calmamente, levantou, tirou toda a roupa e se jogou na água.
O som ínfimo do mergulho se perdeu entre os sons da mata, do lago, da noite. Pequeno como nosso mundo no universo infinito. Uma brisa suave fez as folhas das árvores e do caderno se agitarem, mas a última continuava ali, aberta para as estrelas lerem:
Reflexos e Reflexões
Na noite escura, algo se fortalece...
Ou apenas eu espero que isso aconteça.
Querendo me misturar às estrelas,
me jogo nas águas negras.
Mas a ilusão de estar entre os astros refletidos
nada adianta.
E o que eu esperava?
E nem a lua, nem as estrelas, nem um rápido morcego que passou tão rente ao lago que pareceu tocá-lo, viu Luca sair das águas gélidas naquela noite.
(Fabio Rocha - 1999)
COMO FICAR RICO, TER AMOR DE SOBRA E SER FELIZ EM POUCAS PÁGINAS
O quarto está claro. Luz branca, como uma cozinha. É bom estar num lugar claro numa noite tão fria. A luz parece afastar qualquer ausência. O som da chuva batendo nas folhas lá fora convida à introspecção. Leve. Calmo. É hora de começar um romance.
***
Escolhi o caminho errado em algum ponto... Ou vários. Mas estava disposto a achar o certo, custasse o que custasse. Ana me falava o dia todo sobre coisas que não interessavam minimamente. Cor de cabelo, o filho do artista que não era dele, uma bolsa que ela queria comprar mas estava cara... E eu sabia que ela queria que eu dissesse “Não faz mal, compra.”, mas não dizia. Fingia não saber. Olhava o tempo todo a sopa de ervilhas, que comia lentamente. Silêncio. Agora eu sabia, mesmo sem olhar o rosto de Ana, que ela estava se emputecendo. Em breve viria alguma reação disfarçada por parte dela. E eu fingiria não notar também, para evitar piores brigas. Mais alguns minutos de silêncio. A sopa estava boa. Ainda quente. Coloquei um pouco mais de azeite. Ana é que bancava a sopa, o azeite, a casa, tudo, mas mesmo assim queria uma aprovação para comprar a maldita bolsa, que eu não dava. Tentava entender porque não dizia logo o que ela queria ouvir, mas não dizia. Saboreava o silêncio.
- Você que acabou com o sorvete de morango, Felipe?
- Ana, quem mais poderia ter sido?
- Felipe, aquele sorvete era para a Rosineide! Ela adora sorvete de morango!
Era assim que ela tentava diminuir-me, lembrando que sou um escritor fodido que não tem grana nem pra comprar sorvete de morango... E tenho que me sentar ali com meu amor morto e ouvir que o sorvete era para a empregada.
Não respondi. Minha vingança foi chupar a colher cheia de sopa ruidosamente. Ana foi pro quarto e se trancou. Ergui os olhos para a janela da cozinha. A lua devia estar sobre o mar em Copacabana, linda mesmo. Mas tudo o que eu via era a parede descascada do prédio vizinho, e ouvia os cães latindo na noite do subúrbio carioca.
***
Teria que trabalhar em algo que não gostava, pois o que gostava era ler, escrever e filosofar. Mas não conseguia sobreviver disso, nem aturar Ana, meu sustento.
Sim, eu sempre soube que o trabalho fora uma invenção católica, para cansar o corpo e livrá-lo dos “pecados da carne”, posteriormente reforçada pelo Protestantismo, com seus dogmas do tipo “mente vazia, morada do demônio”. Sem falar na praga lançada sobre Adão, quando expulso do Paraíso. Praga que agora parecia se abater sobre mim... Grandes portões se fechavam às minhas costas, enquanto a sopa esfriava a minha frente.
Sempre soube que a imensa maioria das pessoas trabalhava explorada por não ter outra opção de sobrevivência, e a minoria privilegiada o fazia para fugir de si, pelo status, pela necessidade consumista de comprar mais e mais... Raríssimas exceções viviam fazendo o que gostavam. Eu mesmo não consegui...
Sempre soube que as máquinas cada vez mais tiram emprego de trabalhadores com funções braçais. E, paradoxalmente, o nosso ensino (público e privado) cada vez mais prepara pior os futuros trabalhadores que, sem empregos braçais e despreparados para empregos mais “intelectuais”, aumentam as estatísticas de desemprego.
Eu sabia demais. Pra quê saber tanto, meu Deus? Houve um tempo em que pensei em ser professor para revolucionar esse sistema educacional de alguma forma extraordinária, ou pelo menos para dividir essa sabedoria com alguém. Mas não passei nem na prova para o Mestrado, com questões absurdas sobre termos herméticos. E, sem um título, não se pode fazer nada por aqui. Por mais que não se aprenda nada de útil numa graduação ou numa pós-graduação. Por mais que a grande atividade nesses locais seja a das máquinas de xerox.
Ah, leitor... Esse Felipe que sempre valorizava o ócio, a contemplação... Que criticava o uso atual da expressão utilizada nos campos de concentração nazista “O trabalho liberta”... Queria se libertar. E teria que se libertar pelo trabalho nazista, pelo trabalho alienado, pelo trabalho sem paixão, pelo trabalho em troca apenas de um maldito salário.
***
Ana, em seu quarto, organizava os armários, lotados de roupas em excesso. Após isso passaria uns dez cremes e tomaria uns quinze remédios para evitar a velhice inevitável.
Rosineide chorava com sua novelinha, e dormia, exausta, com a TV ligada.
Eu pensava sobre os males do mundo, filosofava longamente olhando e janela, deixava os pensamentos fluírem, se misturarem... No entanto, sempre voltavam a Rosineide. Raiva. Era raiva. Como a que senti no dia em que ela interrompeu minha meditação transcendental com risadas. Devia achar a posição de yoga ridícula, ou eu ridículo na tal posição. E agora, eu teria que guardar sorvete para aquela imbecil.
Aliás, ela vivia rindo. Com motivo ou sem. Onde achava felicidade, meu Deus? Uma anta sem visão de mundo, que não sabia anotar um recado quando atendia o telefone. Uma mula de carga que passava mais de oito horas por dia limpando, cozinhando, passando roupa, fazendo tudo para os outros. Que se tivesse meio neurônio já tinha se matado ou entrado para o tráfico de drogas. Que não tinha casa, que não tinha um amante, um amor, nada. De onde saíam aquelas infindáveis risadas de hiena?
Percebi que minhas mãos estavam espremendo as bordas da mesa, como que buscando o pescoço gordo de Rosineide. A imagem da desgraçada morrendo em minhas mãos me deu prazer. Poder.
E ainda tinha um radinho. Um maldito radinho de som péssimo, que eu era obrigado a ouvir quando ela limpava a casa. Quantos walkmans já dei para esta criatura? Perdi a conta. Ela não usava. Agradecia, guardava ou vendia, mas não usava. E a casa não sendo minha, o salário dela não sendo pago por mim, como exigir qualquer coisa?
Fui dormir no sofá, com uma pressão no peito. Morna. Não dormiria nem tão cedo.
***
Pela manhã, saí pela cidade. Desci a ladeira da maldita rua de Ana e vi a vizinha manca subindo. Senti tanta pena dela subindo sozinha que não a cumprimentei. Seu marido, Parmênides, tinha morrido. A vida é assim mesmo, cruel. Por onde andaria agora o companheiro da vizinha, seu apoio nas ladeiras da vida? O cara vivia na janela do primeiro andar do prédio vizinho, fumando e escarrando ostras no quintal da casa da Ana. E, sempre que estava ali, naqueles poéticos instantes, procurava desesperadamente alguém para puxar assunto. Eu saía meio abaixado, fingindo uma concentração que não tinha, se pudesse, saía de casa invisível quando ouvia sua tosse ou sentia sua presença ali na janela. Era um pigarro que queria dizer “Estou aqui, fale comigo!”. Eu fingia não ouvir. Mesmo assim, muitas vezes ele começava a falar. Falava do tempo, ou temas semelhantes e metade eu não entendia. Era meio grulha nosso vizinho falecido. Eu não compreendia e concordava e dizia ter pressa e saía. De quando em vez ele trazia uns aipins que tinha colhido num sítio, não lembro onde. Ana agradecia, Rosineide cozinhava e eu, Felipe, comia.
Não sei mesmo o nome da vizinha manca que sobe a ladeira com dificuldade, viúva, nesse frio ferrado que está fazendo ultimamente.
***
A cidade do Rio de Janeiro acordava. As padarias abertas, com trabalhadores se preparando para mais um dia, tomando café com leite em copos de vidro. Um borracheiro espantando pombos batendo com uma chave inglesa numa placa de proibido estacionar. Um vizinho do borracheiro reclamando pelo barulho, que havia lhe acordado. Ainda estava frio. Frio não combina com esta cidade maravilhosa que é o Rio de Janeiro, mas estava bem frio.
Caminhei pelas ruas sem destino certo, mas não consegui escapar da minha dúvida: será que terei que me juntar aos das padarias? Ou será que meu romance – este romance – me salvará? Pensava num título para ele... Num título que atraia o leitor. Tem que ser forte e universal. Talvez algo como “COMO FICAR RICO, TER AMOR DE SOBRA E SER FELIZ EM POUCAS PÁGINAS”. Foi quando encontrei com tio Sávio. Quase nos esbarramos. Ele seguia curvado, ombros preocupados, pasta cheia de obrigações sem sentido.
- Opa. Felipe? Saiu um concurso público pra prefeitura de Nova Iguaçu, você viu?
Este era o “tudo bem?” do tio Sávio. Ele era fiscal, odiava seu emprego e cismou que eu devia ser funcionário público, que teria mais garantias... Eu era bem preparado, tinha uma faculdade e passaria fácil em algum, insistia. Mesmo sabendo que eu já tentara vários e não conseguira. Depois disso ele sempre dava uma reclamada da vida e, por algum motivo estranho, eu sempre acabava falando demais da minha própria vida pra ele. Ele dava uns conselhos óbvios que me irritavam, mas eu sempre falava demais, reclamava demais, me colocando numa situação de alguém que parece querer ouvir conselhos. Quão complexas as relações humanas... Tio Sávio começou a aconselhar e ouvi. Senti um desconforto por ter que ouvir aquilo e desconversei, inventei um compromisso e ele foi encarar o seu metrô superlotado diário. Eu até que gostei de falar com ele. Sempre gostava, no fundo. Não sei, racionalmente, o porquê.
Dei outra olhada pra padaria, onde já havia um cara bêbado àquela hora da manhã, tropeçando e xingando alguém imaginário, com plenitude de gestos. Possivelmente falava para o vazio tudo que não podia falar para seu chefe, aquele capitalista que lhe explorava. A imagem de Ana me pareceu menos sombria, sua casa mais agradável e sua empregada apenas uma pobre companheira que não se alimentou bem na infância, que estudou mal nesse ensino miserável e não teve oportunidades melhores para evoluir como espírito de Deus. Coitada.
(Fabio Rocha - 2004)
***
Escolhi o caminho errado em algum ponto... Ou vários. Mas estava disposto a achar o certo, custasse o que custasse. Ana me falava o dia todo sobre coisas que não interessavam minimamente. Cor de cabelo, o filho do artista que não era dele, uma bolsa que ela queria comprar mas estava cara... E eu sabia que ela queria que eu dissesse “Não faz mal, compra.”, mas não dizia. Fingia não saber. Olhava o tempo todo a sopa de ervilhas, que comia lentamente. Silêncio. Agora eu sabia, mesmo sem olhar o rosto de Ana, que ela estava se emputecendo. Em breve viria alguma reação disfarçada por parte dela. E eu fingiria não notar também, para evitar piores brigas. Mais alguns minutos de silêncio. A sopa estava boa. Ainda quente. Coloquei um pouco mais de azeite. Ana é que bancava a sopa, o azeite, a casa, tudo, mas mesmo assim queria uma aprovação para comprar a maldita bolsa, que eu não dava. Tentava entender porque não dizia logo o que ela queria ouvir, mas não dizia. Saboreava o silêncio.
- Você que acabou com o sorvete de morango, Felipe?
- Ana, quem mais poderia ter sido?
- Felipe, aquele sorvete era para a Rosineide! Ela adora sorvete de morango!
Era assim que ela tentava diminuir-me, lembrando que sou um escritor fodido que não tem grana nem pra comprar sorvete de morango... E tenho que me sentar ali com meu amor morto e ouvir que o sorvete era para a empregada.
Não respondi. Minha vingança foi chupar a colher cheia de sopa ruidosamente. Ana foi pro quarto e se trancou. Ergui os olhos para a janela da cozinha. A lua devia estar sobre o mar em Copacabana, linda mesmo. Mas tudo o que eu via era a parede descascada do prédio vizinho, e ouvia os cães latindo na noite do subúrbio carioca.
***
Teria que trabalhar em algo que não gostava, pois o que gostava era ler, escrever e filosofar. Mas não conseguia sobreviver disso, nem aturar Ana, meu sustento.
Sim, eu sempre soube que o trabalho fora uma invenção católica, para cansar o corpo e livrá-lo dos “pecados da carne”, posteriormente reforçada pelo Protestantismo, com seus dogmas do tipo “mente vazia, morada do demônio”. Sem falar na praga lançada sobre Adão, quando expulso do Paraíso. Praga que agora parecia se abater sobre mim... Grandes portões se fechavam às minhas costas, enquanto a sopa esfriava a minha frente.
Sempre soube que a imensa maioria das pessoas trabalhava explorada por não ter outra opção de sobrevivência, e a minoria privilegiada o fazia para fugir de si, pelo status, pela necessidade consumista de comprar mais e mais... Raríssimas exceções viviam fazendo o que gostavam. Eu mesmo não consegui...
Sempre soube que as máquinas cada vez mais tiram emprego de trabalhadores com funções braçais. E, paradoxalmente, o nosso ensino (público e privado) cada vez mais prepara pior os futuros trabalhadores que, sem empregos braçais e despreparados para empregos mais “intelectuais”, aumentam as estatísticas de desemprego.
Eu sabia demais. Pra quê saber tanto, meu Deus? Houve um tempo em que pensei em ser professor para revolucionar esse sistema educacional de alguma forma extraordinária, ou pelo menos para dividir essa sabedoria com alguém. Mas não passei nem na prova para o Mestrado, com questões absurdas sobre termos herméticos. E, sem um título, não se pode fazer nada por aqui. Por mais que não se aprenda nada de útil numa graduação ou numa pós-graduação. Por mais que a grande atividade nesses locais seja a das máquinas de xerox.
Ah, leitor... Esse Felipe que sempre valorizava o ócio, a contemplação... Que criticava o uso atual da expressão utilizada nos campos de concentração nazista “O trabalho liberta”... Queria se libertar. E teria que se libertar pelo trabalho nazista, pelo trabalho alienado, pelo trabalho sem paixão, pelo trabalho em troca apenas de um maldito salário.
***
Ana, em seu quarto, organizava os armários, lotados de roupas em excesso. Após isso passaria uns dez cremes e tomaria uns quinze remédios para evitar a velhice inevitável.
Rosineide chorava com sua novelinha, e dormia, exausta, com a TV ligada.
Eu pensava sobre os males do mundo, filosofava longamente olhando e janela, deixava os pensamentos fluírem, se misturarem... No entanto, sempre voltavam a Rosineide. Raiva. Era raiva. Como a que senti no dia em que ela interrompeu minha meditação transcendental com risadas. Devia achar a posição de yoga ridícula, ou eu ridículo na tal posição. E agora, eu teria que guardar sorvete para aquela imbecil.
Aliás, ela vivia rindo. Com motivo ou sem. Onde achava felicidade, meu Deus? Uma anta sem visão de mundo, que não sabia anotar um recado quando atendia o telefone. Uma mula de carga que passava mais de oito horas por dia limpando, cozinhando, passando roupa, fazendo tudo para os outros. Que se tivesse meio neurônio já tinha se matado ou entrado para o tráfico de drogas. Que não tinha casa, que não tinha um amante, um amor, nada. De onde saíam aquelas infindáveis risadas de hiena?
Percebi que minhas mãos estavam espremendo as bordas da mesa, como que buscando o pescoço gordo de Rosineide. A imagem da desgraçada morrendo em minhas mãos me deu prazer. Poder.
E ainda tinha um radinho. Um maldito radinho de som péssimo, que eu era obrigado a ouvir quando ela limpava a casa. Quantos walkmans já dei para esta criatura? Perdi a conta. Ela não usava. Agradecia, guardava ou vendia, mas não usava. E a casa não sendo minha, o salário dela não sendo pago por mim, como exigir qualquer coisa?
Fui dormir no sofá, com uma pressão no peito. Morna. Não dormiria nem tão cedo.
***
Pela manhã, saí pela cidade. Desci a ladeira da maldita rua de Ana e vi a vizinha manca subindo. Senti tanta pena dela subindo sozinha que não a cumprimentei. Seu marido, Parmênides, tinha morrido. A vida é assim mesmo, cruel. Por onde andaria agora o companheiro da vizinha, seu apoio nas ladeiras da vida? O cara vivia na janela do primeiro andar do prédio vizinho, fumando e escarrando ostras no quintal da casa da Ana. E, sempre que estava ali, naqueles poéticos instantes, procurava desesperadamente alguém para puxar assunto. Eu saía meio abaixado, fingindo uma concentração que não tinha, se pudesse, saía de casa invisível quando ouvia sua tosse ou sentia sua presença ali na janela. Era um pigarro que queria dizer “Estou aqui, fale comigo!”. Eu fingia não ouvir. Mesmo assim, muitas vezes ele começava a falar. Falava do tempo, ou temas semelhantes e metade eu não entendia. Era meio grulha nosso vizinho falecido. Eu não compreendia e concordava e dizia ter pressa e saía. De quando em vez ele trazia uns aipins que tinha colhido num sítio, não lembro onde. Ana agradecia, Rosineide cozinhava e eu, Felipe, comia.
Não sei mesmo o nome da vizinha manca que sobe a ladeira com dificuldade, viúva, nesse frio ferrado que está fazendo ultimamente.
***
A cidade do Rio de Janeiro acordava. As padarias abertas, com trabalhadores se preparando para mais um dia, tomando café com leite em copos de vidro. Um borracheiro espantando pombos batendo com uma chave inglesa numa placa de proibido estacionar. Um vizinho do borracheiro reclamando pelo barulho, que havia lhe acordado. Ainda estava frio. Frio não combina com esta cidade maravilhosa que é o Rio de Janeiro, mas estava bem frio.
Caminhei pelas ruas sem destino certo, mas não consegui escapar da minha dúvida: será que terei que me juntar aos das padarias? Ou será que meu romance – este romance – me salvará? Pensava num título para ele... Num título que atraia o leitor. Tem que ser forte e universal. Talvez algo como “COMO FICAR RICO, TER AMOR DE SOBRA E SER FELIZ EM POUCAS PÁGINAS”. Foi quando encontrei com tio Sávio. Quase nos esbarramos. Ele seguia curvado, ombros preocupados, pasta cheia de obrigações sem sentido.
- Opa. Felipe? Saiu um concurso público pra prefeitura de Nova Iguaçu, você viu?
Este era o “tudo bem?” do tio Sávio. Ele era fiscal, odiava seu emprego e cismou que eu devia ser funcionário público, que teria mais garantias... Eu era bem preparado, tinha uma faculdade e passaria fácil em algum, insistia. Mesmo sabendo que eu já tentara vários e não conseguira. Depois disso ele sempre dava uma reclamada da vida e, por algum motivo estranho, eu sempre acabava falando demais da minha própria vida pra ele. Ele dava uns conselhos óbvios que me irritavam, mas eu sempre falava demais, reclamava demais, me colocando numa situação de alguém que parece querer ouvir conselhos. Quão complexas as relações humanas... Tio Sávio começou a aconselhar e ouvi. Senti um desconforto por ter que ouvir aquilo e desconversei, inventei um compromisso e ele foi encarar o seu metrô superlotado diário. Eu até que gostei de falar com ele. Sempre gostava, no fundo. Não sei, racionalmente, o porquê.
Dei outra olhada pra padaria, onde já havia um cara bêbado àquela hora da manhã, tropeçando e xingando alguém imaginário, com plenitude de gestos. Possivelmente falava para o vazio tudo que não podia falar para seu chefe, aquele capitalista que lhe explorava. A imagem de Ana me pareceu menos sombria, sua casa mais agradável e sua empregada apenas uma pobre companheira que não se alimentou bem na infância, que estudou mal nesse ensino miserável e não teve oportunidades melhores para evoluir como espírito de Deus. Coitada.
(Fabio Rocha - 2004)
ARQUÉTIPO
Desde muito jovem, Alceu sentia que tinha algo importante a fazer. Lia os gibis de super-heróis se vendo em cada um deles. Aventura, desafios e vitória! Não cria em Deus desde que começou a pensar, pois queria ser como um. Não quanto a adoração, mas quanto ao poder e a criação... E parecia que todos, o mundo, a vida, o destino, tudo ajudava-o a seguir nessa direção. Coincidências, estranhas harmonias, sinais, símbolos e sincronicidades lhe indicavam claramente o caminho certo: ser mais.
(Fabio Rocha - 04/03/2007)
(Fabio Rocha - 04/03/2007)
SONHO
No fundo, a voz de Tim Maia: "Você é algo assim, é tudo pra mim, é mais que eu esperava, baby" E num dia sem sol uma câmera em algum plano astral percorria tristemente ruas parecidas com a do bairro de Cachambi no Rio de Janeiro, passando pelo Vasco, mostrando crianças brincando de ser livres, velhinhas tentando as controlar nervosamente, pessoas correndo, ora se assustando com a câmera, como se fosse atropelá-las... Não lembro bem, mas aposto que chovia. "Sou feliz agora. Não, não vá embora"... Triste, triste o filme de meu sonho.
(Fabio Rocha - 08/02/2007)
(Fabio Rocha - 08/02/2007)
WILL
Foi durante uma longa meditação de meia-hora, onde eu quase não meditei, se meditar é relaxar e tentar não pensar em nada. Foi estranhamente impossível meditar, com pensamentos desconexos pululando o tempo todo. A conta da luz a pagar, o feriado se aproximando e a possibilidade do amigo vir para o Rio de Janeiro, pedaços de poemas que perdi no dia anterior por não parar para escrever assim que surgiram, ligar para a namorada após a meditação não realizada, ligar o rádio, tomar banho, ir para o trabalho...
Foi no meio desse silêncio caótico e cheio de palavras que me surgiu Daniela. Primeiro a palavra, depois a dispersa imagem de alguém inventado. De alguém que nunca foi. De alguém que, no entanto, é... A soma de todas as mulheres que a mim vieram como "não". Como impossibilidades tentadas ou não tentadas. Daniela sorriu na sua não existência e desisti de meditar.
(Fabio Rocha - 10/10/2006)
Foi no meio desse silêncio caótico e cheio de palavras que me surgiu Daniela. Primeiro a palavra, depois a dispersa imagem de alguém inventado. De alguém que nunca foi. De alguém que, no entanto, é... A soma de todas as mulheres que a mim vieram como "não". Como impossibilidades tentadas ou não tentadas. Daniela sorriu na sua não existência e desisti de meditar.
(Fabio Rocha - 10/10/2006)
ENQUANTO ISSO
Enquanto isso, no final da minha rua, o pastor canta como narrasse uma corrida de cavalos. E sinto felicidade naquela garagem-igreja.
Quando novo, costumava ver os meninos na rua sorrindo soltando pipas e pensava que deveriam estar estudando como eu...
Agora queria ter soltado pipa, conseguido acreditar num deus maiúsculo e cantado com meus irmãos na garagem pobre, feliz com o agora. Alheio ao maldito Grego e às malditas faculdades-guetos que criam e falam línguas que só elas mesmas entendem!
Eu gostava de Física até fazer Engenharia. Gostava de Literatura até fazer Letras. Gostava do Filosofia até fazer Filosofia. Tem algo de muito errado no nosso sistema de ensino (ou comigo). E sempre cursei faculdades públicas, teoricamente as "melhores". É desolador o fato de 99% das matérias de todas as malditas faculdades por que passei serem um desestímulo total: herméticas, inúteis ou herméticas e inúteis. Quintana já dizia que se você lê e relê um texto e nada entende o problema é do AUTOR e não seu.
(Fabio Rocha - 2006)
Quando novo, costumava ver os meninos na rua sorrindo soltando pipas e pensava que deveriam estar estudando como eu...
Agora queria ter soltado pipa, conseguido acreditar num deus maiúsculo e cantado com meus irmãos na garagem pobre, feliz com o agora. Alheio ao maldito Grego e às malditas faculdades-guetos que criam e falam línguas que só elas mesmas entendem!
Eu gostava de Física até fazer Engenharia. Gostava de Literatura até fazer Letras. Gostava do Filosofia até fazer Filosofia. Tem algo de muito errado no nosso sistema de ensino (ou comigo). E sempre cursei faculdades públicas, teoricamente as "melhores". É desolador o fato de 99% das matérias de todas as malditas faculdades por que passei serem um desestímulo total: herméticas, inúteis ou herméticas e inúteis. Quintana já dizia que se você lê e relê um texto e nada entende o problema é do AUTOR e não seu.
(Fabio Rocha - 2006)
OUTRO
Hoje percebi que ando lendo vários romances com algo em comum: arrependimento. Vários personagens se arrependendo ou não entendendo o que fizeram de seus últimos 20, 30 anos... Ou pior: o que fizeram da sua vida. E este é meu grande medo. Por isso, mergulho em mim mesmo, luto, tento buscar um dia-a-dia mais feliz, que tenha a ver com o que gosto. Conseqüentemente, daqui a alguns anos eu estarei arrependido do tempo que gastei tentando não me arrepender.
(Fabio Rocha - 2006)
(Fabio Rocha - 2006)
RECOMEÇO
Escrevo vendo TV. Não fosse assim, escreveria? A vida inteira olhei, li, observei o caos que nos cerca. Chega. É hora de vomitar tudo que os olhos comeram, encher os olhos dos outros... Com palavras.
Sou daquele tipo de pessoa que não entende porra nenhuma. Nada. As mínimas coisas, as coisas básicas... Diariamente, olho embasbacado o trânsito de seres em excesso indo trabalhar de manhã e voltando pra casa de tardinha, em excesso, engarrafados novamente. Os outros acham isso normal? Acham isso válido? Serei o único tão afetado por isso? Pela falta de sentido desta merda?
Você ama mais o que conquista com dificuldade, já dizia Aristóteles. Assim, Eliseu imaginava que amaria muito seu livro. Seu primeiro romance.
(Fabio Rocha - 2006)
Sou daquele tipo de pessoa que não entende porra nenhuma. Nada. As mínimas coisas, as coisas básicas... Diariamente, olho embasbacado o trânsito de seres em excesso indo trabalhar de manhã e voltando pra casa de tardinha, em excesso, engarrafados novamente. Os outros acham isso normal? Acham isso válido? Serei o único tão afetado por isso? Pela falta de sentido desta merda?
Você ama mais o que conquista com dificuldade, já dizia Aristóteles. Assim, Eliseu imaginava que amaria muito seu livro. Seu primeiro romance.
(Fabio Rocha - 2006)
ARROUBO
A semana se estendia ao sol, enfadonha, atemorizante, semana de pura ansiedade nos plexos e pressa nos prédios, onde noventa por cento da humanidade perdia tempo trabalhando em algo que odiava. Longa, longa... Mas, tendo estado com ela no sábado, quase valia. Valia a mais valia. Valia mais que um Valium a lembrança dos infinitos minutos com ela, sorrindo abobado nas abóbadas celestes, tomando sorvete, vendo um filme idiota qualquer, qualquer banalidade se transformava em alegria. E a semana não fluía. Parecia ainda pior. Mas valia por ter final. Um final com sorrisos, um porto, uma chegada. Ou valia mais ainda porque ela não lhe queria?
(Fabio Rocha - 2006)
(Fabio Rocha - 2006)
TRINTA
Trinta minutos para o fim do expediente e eu dirigir trinta minutos para chegar em casa às seis e trinta e jantar em trinta minutos e ver TV por vários trinta minutos e me lamentar por trinta minutos por mais um fim-de-semana sem sentido cheio de trinta minutos sem paixão antes de dormir.
(Fabio Rocha - 07/01/2005)
(Fabio Rocha - 07/01/2005)
PELO QUE (IXO)?
Antes que eu esqueça que sou escritor... Antes que eu não tenha tempo e me acostume com isso... Antes do ponto final, algumas linhas.
Jamais entenderei quem beija sem beijar. Um encontro de línguas ou bocas semi-mortas por segundos intermináveis... Sobre corpos desativados, sem calor, sem pulsação acelerada, sem suspiros, sem mãos buscantes, sem prazer, sem tesão. Para quê? O que há neste ato apenas pelo ato?
Jamais entenderei o beijo pelo beijo, como dois mortos grudados pelo queixo.
(Fabio Rocha - 15/12/2004)
Jamais entenderei quem beija sem beijar. Um encontro de línguas ou bocas semi-mortas por segundos intermináveis... Sobre corpos desativados, sem calor, sem pulsação acelerada, sem suspiros, sem mãos buscantes, sem prazer, sem tesão. Para quê? O que há neste ato apenas pelo ato?
Jamais entenderei o beijo pelo beijo, como dois mortos grudados pelo queixo.
(Fabio Rocha - 15/12/2004)
SUO
Suo. Está frio, mas suo. Escrevo com o estômago apertado. Superman perdendo poderes. Superman querendo perder os poderes e começar a viver. Escrevo pânico. Sinto raiva? Espero algo. Espero há tempos. Estalo os dedos. Não estou calmo. Longe disso. Esta sala (cela, ato falho) cheia de silêncio e perfume tenta me convencer que ela é o problema. Não é. Sou eu. Eu sou ou estou? Talvez seja a hora de abandonar a psicanálise... Ouço sons no corredor. O estômago se aperta ainda mais. Se tocar o telefone, acho que vou morrer... Nada e silêncio e frio e chuva: manhã. Costuma tudo melhorar à tarde. Mas não me consola. É tarde... Devo mesmo aprender piano e madrugar para fazer yoga pela manhã quando não quero nada, só dormir? Seria possível passar vinte e quatro horas por dia dormindo ininterruptamente, todos os trezentos e sessenta e cinco longos e intermináveis dias de todos os anos? Um sonho... É preciso sonhar.
(Fabio Rocha - 19/11/2004)
(Fabio Rocha - 19/11/2004)
SURPLUS
De vez em quando o mundo se divide em tantos mundos que me acho imundo irresponsável adulto demais para tanta indecisão. Sobra idade cronológica, sendo o tempo relativo... Sim, eu vi o documentário Surplus no GNT nesta data querida. Sim, pregava o anticonsumismo como eu um dia preguei nas paredes imaginárias de revoluções de papel que deste não saem. Sim, mas por que isso ainda me toca, me faz criança, me chora, me morde, me culpa? Eu que tinha desistido de pregar o inútil e crescer na moeda... Eu, que briguei com o ócio e fiz as pazes com a administração de empresas pela sobrevivência de meu ego num possível futuro apartamento próprio meu meu meu onde culpas por ser um parasita familiar de quase trinta na casa paterna e ainda sem emprego fixo de oito horas diárias não entrariam. Não entrariam... No entanto, ainda tateio no quarto não meu com colchonetes para a yoga que não faço atrapalhando a passagem. Também não tenho meditado... Sobra tempo. Que vai ser quando crescer? Drummond ecoa nessa mente velha de criança. Que vai ser quando crescer? Administrador, Mestre em Literatura Brasileira, funcionário público concursado, poeta, psicanalista futuro, webdesigner, poeta, contista, ufólogo passado, poeta, desconfiado, quase tarólogo, perdido e (poeta) mal pago. Tateio o ato que de fato eu deveria mas não me conheço. (Nem sei mais se escrevo prosa ou poesia ou porcaria ou conto dinheiro. Ou não.)
(Fabio Rocha - 18/09/2004)
(Fabio Rocha - 18/09/2004)
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